Como nos definimos?

07-10-2021

Como nos definimos?

Na primeira reunião de fundadores da Transições fomos convidados a fazer a nossa apresentação num minuto sem referirmos a família (casado, solteiro, mãe, pai de..) nem o trabalho (engenheiro, pintor, empresaria, arquiteto...)
Foi um grande desafio para a maioria de nós.
35 anos depois, a frase que Agostinho da Silva proferiu numa entrevista em 1986, ainda é verdade.
A transição também passa por este desafio: encontrarmos, dentro de cada um de nós, aquilo que somos sem recurso a referências externas.

" Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, electricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser. Espero que as máquinas venham restituir às pessoas, aliviando-as do trabalho, a capacidade criativa, aquilo que nelas se oculta. Mas a transição parece-me estar a ser difícil porque as pessoas demoram muito tempo a render-se ao novo. Exigem provas seguras, entram com cautela no desconhecido."

- Agostinho da Silva, AGOSTINHO, ENSINE-NOS (Entrevista a Lurdes Féria), 1986, in DISPERSOS, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1988, p. 113.

Hélia Jorge