O que mais interessa não são os resultados

29-10-2021

O tio João Casaca


É vulgar dizer-se: O que interessa são os resultados!

Não estou nada de acordo com este pressuposto. De facto, sempre o contestei ao longo da minha vida. É para mim óbvio que interessa e muito a forma como se conseguem determinados resultados, sejam eles desportivos, académicos, profissionais ou outros.

O "processo" que conduz ao atingimento dos mesmos não pode nem deve ser ignorado, sub-alternizado ou tacitamente aceite. Se há regras, princípios e valores, não pode valer tudo. A história recente está cheia de exemplos de aldrabices, subterfúgios, mentiras descaradas, corrupção, alienação infundada, ilegalidades e outras malfeitorias sobre as quais pouco ou nada se diz e muito menos se faz.

Da mesma forma que: fechar os olhos, ignorar, desvalorizar, procrastinar, esquecer, ou mesmo ressalvar actos ilícitos ou eticamente incorrectos não pode ser aceitável. As "habilidades", os compadrios e os modos tortuosos ou menos honestos que a coberto de resultados tudo justificam, é inadmissível. O grande delito tem-nos dado provas de até onde pode chegar a ganância e insensibilidade de alguns, destruindo as vidas de muitos cidadãos e das suas famílias. Aprendemos alguma coisa com isso? É possível, mas talvez nem tanto.

Numa conferência de Ken Blanchard a que assisti em 2014 na Feira Internacional de Lisboa, questionei-o:

- Como explica que gestores saídos das melhores escolas de negócio do Mundo se envolvam numa cabala como a que gerou a grande depressão de 2008/2009?

Colocou a mão sobre os olhos para se proteger das luzes dos holofotes, olhou para mim com um sorriso e respondeu:

- É uma muito boa questão. Seguramente que vamos ter de rever todo o currículo formativo dessa gente.

Depois agradeceu e retirou-se não tendo respondido a mais nenhuma pergunta.

Recordo bem a sua mensagem: É preciso educar esta gente!

Será que o estamos a fazer? A educação começa de pequenino. Muito pequenino mesmo. Em casa, na escola, na convivência com os amigos e em todo o tipo de experiências adaptativas. Sabemos que os pais têm vidas ocupadíssimas e os computadores não são bons conselheiros.

Mas existimos nós!

Enquanto maiores, é importante que chamemos a atenção dos nossos filhos e netos para os valores da decência, da honestidade, da verdade, da solidariedade e da convivência com a natureza.

Que os pratiquemos com eles, de forma que aprendam fazendo.

Não por meio de retóricas estereotipadas (vulgo "secas"), mas através de exemplos vivos, de histórias que os cativem e que guardem para sempre.

O meu Tio João Casaca um dia contou-me que o meu Pai apanhara numa armadilha de arame e visco, um pequeno pássaro.

Todo contente, correu para o mostrar ao Avô Bartolomeu. Este olhou para as suas mãozitas pequenas segurando o passarinho e disse-lhe:

- Olha que bonito! Deixa-me ver...., deixa-me ver!...

Assim que o meu Pai lhe deu o passarinho para a mão, ele deixou-o voar e exclamou com um ar de disfarçado espanto:

- Ah!...fugiu!...

José Aleixo Dias [1]


[1] O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico