Destralhar, Destralhar, … !!!

04-10-2023

Há uns anos comecei num processo de "destralhanço" que foi muito motivado pela minha mudança de vida.

Normalmente não deito nada fora, gosto de reutilizar, de reciclar. Também não vendo, dou a quem acho que possa fazer sentido.

Mas até para reciclar há limites por isso comecei a destralhar.

Comecei por dar roupa minha. Dei fatos, blusas, sapatos, lenços, bijuteria … dei à família e a amigas ou a instituições como a Dress for Success.

Dei muita roupa e também adaptei roupa que não usava por estar "fora de moda" e com apertos e aplicações aqui e ali passei a usar. Agora já consigo "ver" a minha roupa dentro do armário e posso dizer que gosto e uso quase tudo o que tenho. Mas ainda falta o quase...

Dei livros, o que foi para mim o mais difícil. Comecei por dar aqueles que não gostei particularmente. Hoje já consigo dar também alguns dos que gostei.

Dei há anos, uma coleção fantástica de discos de Vinil, depois passei aos CD, dei os que já não gostava e depois dei também aqueles que gostava porque digitalizei.

Dei roupa de casa, lençóis, toalhas de mesa e de banho, panos de louça... tinha roupa de cama e toalhas lindíssimas, bordadas por mães e avós, e só usava as outras, as que não têm atrativos nem história porque não eram dias especiais. Agora, todos os dias são especiais e só uso toalhas e lençóis bordados. Sim, sou requintada!

Dei montanhas e montanhas de bibelots. Tinha tantos, alguns comprados, mas sobretudo dados por familiares e amigos, ou resultado de espólio de heranças várias. E estavam de tal modo "uns em cima dos outros" que realmente não conseguia apreciar nada, porque nada tinha destaque.

O caminho do "destralhanço" é difícil e é longo por isso é preciso percorrê-lo um passo de cada vez e, claro, é preciso dar o primeiro passo, como dizia Lao Tse.

No início impus-me a mim própria todos os dias desfazer-me de um objeto, por mais pequeno ou insignificante que fosse. Podia ser uma simples fotografia. Porquê guardar uma fotografia que tirei com um colega de trabalho onde eu até nem estou grande coisa e o colega nem é propriamente um amigo?

Cada vez que me desfazia de algo sentia uma leveza muito grande e isso foi impulsionador para que continuasse. Destralhar é um processo contínuo e realmente nunca acaba.

Quando já estamos rotinados no processo de destralhar passamos a outra fase não menos importante que é o de comprar menos, consumir menos e nisso a pandemia ajudou muito.

Nunca serei uma minimalista no sentido estrito, como Fumio Sasaki o autor do livro "Adeus Coisas" de que já falei aqui.

Gosto de alguns objetos que me trazem memórias quentes;

Aquele copo de brandy do tempo da minha avó quase piroso ou kitch, alaranjado com flores gravadas...

Gosto de ter fotos espalhadas pela casa. A da minha avó padeira, que não sabia ler nem escrever, mas sabia contar, com o bloquinho das contas depois de uma venda do pão, ... a foto do meu filho Vasco a espreitar, curioso e enternecido, para o irmão Miguel acabado de nascer, ... a foto do meu pai na praia a deixar-se despentear pelo neto Vasco, ...

Gosto dos meus quadros, do Dali, do Van Gogh, ...

Gosto da minha "cadeira parteira" onde tanta gente da família dormiu sestas na quinta, ...

Gosto de ouvir o tique-taque do velho relógio que era da casa dos meus pais e sentir-me mole e sonolenta...

Não, não sou minimalista. Mas percebo que a aritmética pode ser outra - quando Menos pode ser Mais, muito Mais...

O "destralhanço" ajuda as pessoas a treinarem o desapego, a descobrirem o que é realmente essencial e importante, a estarem mais focadas, a não se distraírem com "coisas".

Como dizia Brad Pitt numa das cenas do filme Fight Club:

The things you own will end up owning you.

"As coisas que possuis vão acabar por te possuir".

Experimente e vai ver que se vai sentir mais leve. O "destralhanço" pode até tornar-se um vício, um daqueles vícios bons que vale a pena ter.

Bom "destralhanço"! E se tem dúvidas como começar, fale comigo, eu posso ajudar!

Hélia Jorge, 19/9/2023