Desafio "O meu Bairro"
Telheiras - Das Raízes Rurais à Urbanização Moderna
Lumiar - Lisboa

Roteiro de Visita

Introdução: "Uma Aldeia na Cidade"
Telheiras configura-se hoje como um aglomerado urbano de fascinantes contrastes, onde a memória de um passado agrário subsiste sob a geometria de um planeamento modernista de referência. A ocupação deste território, porém, mergulha em tempos imemoriais; na Wikipédia refere-se com provável ter sido habitado desde a pré-história. Embora o topónimo apareça formalmente em documentos de 1220, a "ruralidade" de Telheiras persistiu quase inalterada até ao último quartel do século XX. O que outrora foi um mosaico de propriedades agrícolas e refúgios de veraneio da nobreza, como a Luz, Carnide ou o Paço do Lumiar, transformou-se, pela intervenção planeada da EPUL, num "bairro de doutores". Esta transição sociológica, marcada pela fixação de uma classe licenciada no pós-1974, não apagou o que os residentes chamam de "ruralidade urbana", uma identidade que se preocupa com habitações de qualidade em harmonia com a natureza.
O percurso inicia-se na zona da antiga aldeia, tem cerca de 6 km, faz-se bem entre 2h a 3h e é de nível 1 (só tem uma pequena subida).



O Núcleo Antigo de Telheiras
(NAT)
(1 e 2 no mapa)
O Núcleo Antigo de Telheiras funciona como o embrião histórico e o ponto de contacto entre a aldeia de ontem e o bairro planeado. Iniciamos o percurso junto ao arco da Quinta de S. Vicente que marca a entrada na zona antiga, onde a Estrada de Telheiras assume o papel de "espinha dorsal" histórica. Com cerca de 700 metros de extensão, esta via preserva a sinuosidade original dos caminhos que ligavam quintas e solares.
Neste núcleo, é imperativo destacar o Jardim na Avenida Ventura Terra, que enquadra o "Bairro Jardim". Iniciado em 1923, este conjunto de moradias (com desenho de inspiração alemã) introduziu uma nova lógica residencial, embora a precariedade de infraestruturas tenha perdurado: as estradas mantiveram-se em terra batida e a iluminação pública só chegou depois de 1930. O contraste entre esse ambiente e o extremo do jardim, onde podemos observar a linha verde do Metro de Lisboa a mergulhar no subsolo, mostra que neste bairro a modernidade coexiste com os vestígios da antiga aldeia.

Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu
(3 no mapa)
Este Monumento Nacional, fundado em 1633, representa o coração espiritual e histórico do bairro. A sua fundação deve-se a D. João, o Príncipe de Cândia (Ceilão, atual Sri Lanka), exilado em Portugal e convertido ao cristianismo. Conhecido como o "Príncipe Negro", aplicou a sua pensão real na construção deste oratório franciscano como um ex-voto: uma invocação para que a Virgem Maria lhe franqueasse as "Portas do Paraíso" em tempos de pecado. O príncipe, que manteve residência na Mouraria, com a sua filha Maria de Cândia, viveu em litígio com os Clérigos Menores antes de entregar o espaço aos Franciscanos.
No interior da igreja, sobrevive o túmulo do príncipe. Embora a lápide mencione março, a investigação histórica de Arlindo Correia confirma que o falecimento ocorreu a 1 de abril de 1642. A inscrição latina, que resistiu ao terramoto de 1755, atesta a fundação do templo. A reconstrução de 1768, impulsionada pelo Conde de Oeiras (futuro Marquês de Pombal), conferiu-lhe a sobriedade pombalina atual. Hoje, a igreja permanece como um testemunho de como o património religioso ancorou a povoação original face à urbanização que a rodeia.


As Hortas da Praça Central
(4 no mapa)
A identidade de Telheiras é indissociável da persistência das práticas agrícolas que desafiam o asfalto. Na Praça Central, junto ao edifício pós-ano 2000 que liga a Telheiras "Velha" à expansão moderna, as hortas urbanas são mais do que simples cultivo; são elementos de coesão social. As vedações, adornadas com figuras de arame, protegem o que os moradores chamam de "vício da terra".
Esta utilização da terra humaniza o bairro, impedindo que este se converta numa estéril cidade-dormitório, e garante que o tecido social se mantenha ligado às suas raízes saloias.

A Visão Modernista: Telheiras Sul (Décadas 70 e 80)
(6 no mapa)
Ao entrarmos em Telheiras Sul, confrontamo-nos com o laboratório urbanístico da EPUL. O plano, liderado por Pedro Vieira de Almeida, rompeu com a "rua-corredor" para separar fluxos de peões e automóveis. A grande inovação foi a expressão arquitetónica que definia um dinamismo volumétrico e vitalização.
O plano não se limitava à concepção de um parque habitacional, mas na criação de um bairro multifacetado, dotado de equipamentos comerciais, culturais, de lazer e de ensino.
Embora o plano tenha ensaiado a pré-fabricação, esta revelou-se um fracasso prático, obrigando ao recurso a métodos tradicionais. Contudo, a filosofia de "células-quarteirões" e os "prédios coloridos" das ruas todas elas com nomes de professores (professor Hernâni Cidade, professora Virgínia Rau, professor Vieira de Almeida, etc.) criaram uma harmonia visual única. O epíteto de "Bairro de Doutores" consolidou-se aqui, fruto da fixação de uma população jovem e licenciada que encontrou neste planeamento uma qualidade de vida e de espaço público, sem paralelo na Lisboa do pós-revolução.

Telheiras Norte e Depósito da EPAL
(7 e 8 no mapa)
A rua Professor Pulido Valente estabelece a fronteira entre a Telheiras Sul (no plano original) e a Telheiras Norte, área de expansão posterior. O Depósito de Águas da EPAL não é apenas um marco visual imponente; ele representava o limite norte do planeamento original da década de 70.
As grandes infraestruturas, como o Eixo Norte-Sul, funcionam como delimitadores que acentuam a "insularidade planeada" do bairro. A travessia da ponte da Rua Abel Salazar permite observar como o bairro se expandiu para lá do seu "triângulo" inicial. É importante notar que Telheiras Norte não seguiu a mesma rigidez da "Notação Espacial" aplicada a Sul, resultando numa linguagem arquitetónica mais uniforme e menos recortada, característica das fases posteriores de crescimento da cidade.

Expansão e Diversidade: Mahatma Gandhi e o Templo Hindu
(9 no mapa)
A "Grande Telheiras" expandiu-se para poente, entrando na zona de Carnide, através de uma dinâmica que mistura planeamento e especulação. O nome "Telheiras" tornou-se uma marca de prestígio, utilizada por promotores imobiliários para valorizar muitos empreendimentos.
O Jardim Mahatma Gandhi e, sobretudo, a arquitetura singular do Templo Hindu, são marcos de uma abertura cultural. O templo não é apenas um centro espiritual, mas é mais um espaço verde que mostra a harmonia com a natureza.
Nesse local está também situado o Hospital das Forças Armadas.

Azinhaga da Torre do Fato e Horta Nova
(10 e 11 no mapa)
A ruralidade de Telheiras sobrevive em vestígios como a Azinhaga da Torre do Fato. Até ao final dos anos 80, o quotidiano do bairro oferecia imagens surreais: rebanhos de ovelhas e pastores atravessavam diariamente as vias principais de circulação automóvel, criando um choque visual entre os "doutores" nos seus novos prédios e os hábitos seculares do campo.
O Parque Agrícola da Horta Nova é o bastião atual desta resiliência. Telheiras permanece fiel ao conceito de "cidade-jardim", onde a ligação à terra é mantida viva através de projetos pedagógicos e hortas comunitárias. Esta coexistência entre o pastor e o académico é o que define a verdadeira alma do bairro: uma aldeia que aprendeu a ser cidade sem perder o contacto com a terra.

O Urbanismo de Prestígio: Alameda Roentgen e Parque dos Príncipes
(12, 13 e 14 no mapa)
O crescimento a poente trouxe o que chamamos de urbanismo de prestígio. A Alameda Roentgen e a Rotunda da Cidade Imaginária exemplificam esta expansão focada na valorização imobiliária. O Parque dos Príncipes introduziu um debate urbanístico interessante: enquanto a Telheiras original se regia pelo conceito de low-rise high-density (máximo de 8 pisos), este novo setor quebrou essa regra com edifícios significativamente mais altos.
Apesar da maior densidade e escala, estes empreendimentos mantiveram uma elevada qualidade arquitetónica e um cuidado com os espaços verdes, tentando mimetizar o sucesso do plano da EPUL. Esta área expandiu a amplitude este-oeste do bairro, consolidando a "Marca Telheiras" como um padrão de habitação de classe média-alta em Lisboa.

Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro e jardim
Terminamos o roteiro num edifício que simboliza a regeneração perfeita do património rústico: a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. Instalada no antigo Solar da Nora (Séc. XVIII), parte da histórica Quinta de São Vicente, a biblioteca é uma lição de continuidade. A nora conservada no pátio central permanece como um símbolo mnemónico da memória agrícola da zona.
O projeto do arquiteto Duarte Nuno Simões integrou de forma magistral as alvenarias setecentistas, as janelas e cantarias originais com materiais modernos como o lioz, a madeira de riga e o vidro temperado. É um ponto onde a "aldeia" e a "cidade" se encontram em harmonia.

O jardim que liga ao metro

Lista de Referências Utilizadas
- CORREIA, Arlindo. "Telheiras (Lisboa) e o seu Convento" (2008/2010). Estudo fundamental sobre a vida do Príncipe de Cândia e a cronologia paroquial.
- CONTUMÉLIAS, Mário. "Uma Aldeia na Cidade — Telheiras, o que é hoje e como se produz um bairro?" (2007/2008). Análise sociológica sobre o fenómeno do "Bairro de Doutores" e a ruralidade urbana.
- WIKIPÉDIA. Artigo "Telheiras". Consulta de indicadores urbanísticos, referências ao plano de Vieira de Almeida e dados sobre equipamentos públicos.
- ART – Associação de Residentes de Telheiras. "História da ART – Pedaços de memória sobre Telheiras". Documentação sobre a mobilização comunitária e a preservação do "vício da terra".
- PITA, Augusto. "Telheiras Sul – Plano de Pormenor", Arquitectura nº 137 (1980). Detalhes técnicos sobre a implementação da Notação Espacial e as células-quarteirões.
- BARBOSA, I. de Vilhena. "Fragmentos de um roteiro de Lisboa – Telheiras", Archivo Pittoresco (1863). Descrição histórica da aldeia no século XIX.
Ana
Paula Melo e António Gaspar
Maio/2026
