Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"DOWN MEMORY LANE" – New England, USA"


Cheguei a Armonk no Outono... Era a primeira vez que vivia sozinha. E quando digo sozinha é na verdadeira aceção da palavra, já que não tinha família comigo e ainda não tinha criado amigos ou conhecidos que me dessem algum conforto social ou emocional.

Tinha sido destacada para os EUA nos "headquarters" da IBM, empresa em que trabalhava na altura. A oportunidade parecia quase irreal para esta Tuguinha de 36 anos. Agarrei-a naturalmente com unhas e dentes, mas por forma a ultrapassar a saudade que, ao fim de 2 semanas, já ameaçava engolir-me viva, resolvi encarar o repto como uma aventura e explorá-la ao máximo.

Com este desafio, a Transições inspirou-me a fazer aquilo que os Americanos chamam de uma viagem "down memory lane", ou numa tradução livre, pelas avenidas da memória.

Em 1997, Armonk era uma pequena vila que tinha uma bomba de gasolina, uma farmácia, uma filial bancária do Citibank, a sede mundial da IBM Corporation e pouco mais. Ficava também na linha de fronteira entre o estado de New York e o estado do Connecticut. Curiosamente, a própria IBM ocupava um terreno com um pé em cada estado.

O primeiro desafio: onde morar? Manhattan era assustadoramente grande para quem tinha acabado de aterrar, e, não menos importante na tomada de decisão, caríssima. E Armonk era isolada e minúscula. Depois de 1 mês a rodar pelas redondezas, decidi-me por uma cidade de tamanho médio, uma "town" como lhes chamam, e lá montei o meu ninho num lindo condomínio na Broad Street de Stamford, no estado do Connecticut, na região de New England.

Stamford é uma cidade costeira a sul, na fronteira com o estado de NY, com tudo o que me agradou. A menos de 30 milhas de Manhattan e a 10 minutos de Armonk, é moderna, com bons equipamentos sociais e comerciais, segura e tranquila para fazer caminhadas ao ar livre, sem ter que olhar por cima do ombro, e com restaurantes e esplanadas decoradas de flores e onde se respiram sorrisos.

A praia no Verão é agradável, principalmente de manhã quando o sol raia de frente. Primeira reflexão, porque nunca pensamos nisso, mas as costas viradas a leste, ficam na sombra quando o sol passa o meio dia. E mesmo quando ainda brilha, se quisermos aproveitá-lo, ficamos de costas para o mar, ou mesmo de cabeça para baixo se a praia tiver alguma inclinação. Achei giro. E como dizem, primeiro estranha-se, depois entranha-se porque a luz ali é tão mais clara num céu tão mais azul.

Mas era Outono quando cheguei. E nesta viagem, hoje, pelas minhas memórias, o que se destaca é aquela profusão de cores quentes, douradas e tintas, das árvores que se espelham pelos vários braços de água que correm livremente por todo o lado. Simplesmente magnífico. Ilustro aqui com apenas uma das imensas fotografias que tirei ao longo dos anos nas margens do rio Mianus.

O Connecticut é considerado um estado conservador, por ser um dos mais antigos, abriga alguns monumentos e sítios históricos que merecem uma visita às grandes cidades de New Haven e à capital Hartford e por lá andei nos primeiros tempos.

Com o nickname de "Constitution State" foi ali assinada em 1639 a que se considera ser a primeira versão da que viria a ser a constituição do País. (Mais tarde o Connecticut seria o 5º estado a aderir à União original de 13 Estados constituintes.) Mais uma reflexão, tendemos sempre a dizer que a América não tem história por ser um país muito recente. Sendo verdade que não tem a história do nosso Velho Mundo, não deixei de admirar sempre a forma como mantêm e bem tratam a que têm. Muitas vezes melhor que nós.

Nas primeiras deambulações em Hartford, visitei a casa e museu de Mark Twain, uma mansão Neogótica imponente que o autor mandou construir para viver com a família, e na qual escreveu as Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn entre outros. E nesse momento tudo fez sentido. Reli os romances de aventuras e consegui ler aquelas paisagens e rios do Connecticut a cada página virada.

Mas Stamford tinha outras vantagens. Sim, estava a pouco mais de meia hora de comboio para sul, apeava-me em plena Central Station de Manahattan, permitindo-me explorar cantos e recantos da Big Apple, por vezes menos conhecidos do turista acidental típico que visita a cidade pela primeira vez. Mas este grupo já será bem versado nesta famosa metrópole para que lhes ensine algo de novo...

Não, Stamford permitiu-me sobretudo sondar a Região de New England, no Nordeste Americano, talvez não tão conhecida. Acabei por me apaixonar pelo percurso que fiz várias vezes percorrendo as cidadezinhas costeiras de Rhode Island, desde Charlestown com as suas raízes tribais nativas; até Newport, uma autêntica jóia preciosa arquitectónica dos primórdios do século XX, com as suas mansões e palacetes impressionantes, onde nos sentimos verdadeiramente pequeninos e insignificantes. Recomendo. Merece mesmo a visita.

Continuando pelo Massachussets, para além da também muito famosa e conhecida Boston onde sempre matava as saudades de um peixinho fresco ou uma mariscada, saía pela I195 para Cape Cod.

Passando por Hyannis, a famosa estância de verão da família Kennedy onde podem visitar o museu do JFK, é mesmo a pontinha da península com a sua rústica Provincetown, que me roubou o coração.

Nunca esquecerei a primeira vez que ali cheguei, sem me aperceber que era dia 10 de Junho, fui acolhida por bandeiras Portuguesas hasteadas por todo o lado. Acontece que esta pequena vila piscatória tem uma forte presença de imigrantes Portugueses, principalmente Açoreanos, que ali se fixaram desde meados do séc XIX, atraídos pela pesca e pelas baleias. E todos os anos celebram o dia de Portugal e das Comunidades.

Para além de apanhar o barco em excursão até ao largo para observar as baleias – e sim, vemo-las sempre, gigantes, monumentais, e bem pertinho – acabei por me habituar a fazer parte todos os anos do Portuguese Festival que decorre no fim de Junho e é uma espécie de Santos Populares lá da terrinha. E que bem me sabia.

Muito mais viagens fiz durante os 6 anos em que vivi nos States, de Leste a Oeste, de Norte a Sul, das Grandes Planícies às Montanhas Rochosas, dos Desertos do Mojave aos pantanais dos Everglades.

E assim ultrapassei as saudades de casa; e assim recarreguei baterias; e assim enriqueci o espírito e a alma; e assim me reinventei... a cada nova milha percorrida, renascia o novo "Eu" que sou agora. Viajar é Vida!

Cristina Semião
05/03/2026