José Lopes Araújo

Dedos na tinta
As minhas pinturas e a Transições

Na escola e no liceu, nunca fui propriamente um bom aluno a desenho.
O desenho há sessenta anos ensinado no liceu era essencialmente o geométrico. Régua, compasso, transferidor não eram propriamente o meu forte e ainda menos passar a tinta da china tais excêntricas figuras, no que resultava quase sempre um borrão, quando afinal pensava que tudo estava a correr bem…
Quanto ao desenho a carvão, guache ou aguarela, fiquei-me então por exercícios simples e pouco conseguidos. Uns quarenta anos depois não sei porquê, comprei uma caixa de tinta de óleo, um cavalete, pincéis, uma tela e comecei a pintar.
Sou, pois, um autodidacta. Não tenho aulas nem tive professores e há cerca de vinte anos que pinto apenas por gosto e porque me faz bem. Não sei nem gosto de pintar aguarela; não me fascinei com o acrílico, pese embora todas as vantagens que tem, mas perco-me, sim, com o óleo.
Pinto pouco e só quando me apetece, mas quando fico só frente à tela, a tentar dar forma a uma paisagem ou a uma figura humana, toda a minha vida fica em suspenso. Fico fascinado pela mistura na palette das cores à procura do tom desejado, gosto do cheiro da tinta e do diluente, gosto de usar os dedos na pintura e de sentir a textura da tintas. Nesse exercício solitário, por vezes apenas acompanhado de música, de preferência um jazz ou um Blues, nem sinto o tempo passar. Se é uma figura humana que pinto, encanta-me aquela pitada de branco sobre a íris que de súbito lhe dá um sopro de vida ou se é paisagem… o respingar da espuma branca na onda que rebenta na praia…
O grupo de pintura da Transições é para mim importante, além do mais porque constitui um estímulo para romper a preguiça e aceitar os desafios. Confesso que não me sinto confortável em expor ou em mostrar os meus modestos trabalhos. Mas já participei em várias exposições da Transições e tenho sempre receio de lá ver pendurado algum quadro meu…
Vale-me as palavras de estímulo do incansável coordenador deste grupo, o meu amigo António Vaz. Precisava de ter algumas aulas…é verdade… mas não sei se ter técnica não me estragaria a pintura ou seja o verdadeiro gosto na liberdade de pintar….sem destino e sem regras.
Mas vou pensar nisso…

Lopes Araújo
Julho 2026