A Alegria de Dar

19-10-2026

Quando se fala em alegria, pensamos também em conceitos como felicidade, otimismo ou boa disposição. Para mim, alegria é uma emoção ou sentimento que vem de dentro e que se pode desenvolver e manter ao longo da vida.

Há quem defenda que ser alegre é uma característica genética e que faz parte da nossa personalidade. No entanto, não podemos negar que o ambiente em que crescemos e vivemos tem um papel determinante no nosso temperamento.

O crescimento do cérebro humano, cujo tamanho quadruplica desde que nascemos até à idade madura, depende em grande parte dos estímulos do meio ambiente, em especial durante os primeiros quinze anos de vida. Está amplamente demonstrado que pessoas que herdam uma forte predisposição para a depressão, em condições familiares e sociais favoráveis, vivem vidas mais longas e mais felizes, sem o menor indício de melancolia. Paralelamente, há indivíduos que vêm ao mundo com um grande potencial para desenvolverem um carácter otimista e, no entanto, estão impregnadas de atitudes pessimistas, simplesmente por terem sido criadas num meio opressivo, inseguro e hostil. A tendência para ver a garrafa meio cheia ou meio vazia depende menos de uma herança inalterável e mais de uma personalidade moldável.

O nosso carácter é constituído por uma série de traços que definem a personalidade ou maneira de ser do indivíduo. Manifesta-se na forma habitual de sentir, pensar e de se comportar, nos gostos e nas aversões. Uma componente fundamental do carácter é a autoestima ou a valorização que fazemos de nós próprios e começa a desenvolver-se durante os primeiros dezoito meses de vida. À medida que as crianças crescem, vão-se moldando pelas experiências que vivem, pela avaliação que fazem de si mesmas e pelo ambiente que as rodeia, fomentando a confiança em si mesmas. Sem uma opinião positiva de si mesmo, não é fácil desenvolver uma disposição otimista. Em geral, as pessoas que se avaliam favoravelmente tendem a ver o mundo através de um prisma mais alegre. Outro ingrediente essencial para a formação do carácter e da alegria/otimismo, é a memória autobiográfica. Recordar o passado é uma forma importante de construir a identidade como ser individual. No entanto, o esquecimento cura muitas feridas da vida, ajudando a perdoar as ofensas e a recuperar o entusiasmo depois de ter passado por algo menos bom. Aqueles que fazem as pazes com o passado libertam-se, recompõem-se e controlam melhor o seu destino. Além disso, melhoram a sua saúde física ao fortalecer o seu sistema imunológico.

Dois irmãos criados pelos mesmos pais, vivendo no mesmo ambiente e tendo as mesmas oportunidades de vida, mesmo sendo gémeos idênticos, vão revelar-se seres humanos diferentes. O material genético pode ser o mesmo, mas há sempre circunstâncias que os irão moldar de forma diferente e que fazem com que revelem personalidades distintas. Um poderá viver a vida de forma otimista e outro de forma pessimista, dependendo de n fatores do meio no qual estão integrados. Também a forma de estar e encarar a vida é uma opção individual. Os otimistas são pessoas que esperam que as coisas lhes corram bem e predispõem-se a isso. Os indivíduos otimistas mantêm uma visão positiva do futuro da humanidade. Por exemplo, quando uma pessoa confia que conseguirá o que se propõe, provavelmente tentá-lo-á. Pelo contrário, se suspeita do fracasso, o mais provável é que nem sequer o tente.

Outra forma de cultivarmos a alegria é rodearmo-nos de pessoas que também elas estão bem com elas e com a vida. Há, assim, um intercâmbio que fomenta o bem-estar e afasta a negatividade. Olhar para a vida numa atitude de gratidão, apreciar as coisas boas que nos acontecem e a beleza do que nos rodeia são ingredientes para nos sentirmos felizes e alegres.

Nesta forma de ver, o voluntariado assume um papel fundamental para cultivarmos a alegria. Quem é capaz de se dar aos outros, quer num trabalho que exija mais empenho a nível físico, quer no contacto com pessoas, sente naturalmente mais alegria do que aquele que vive isolado num ambiente mais restrito, sem contacto humano. O facto de pensarmos mais nos outros do que em nós mesmos, faz com que haja um retorno, na proporção daquilo que damos. Dar o nosso tempo, saber ouvir e demonstrar carinho e empatia para com os outros são os ingredientes para torná-los mais felizes e, naturalmente, sentirmo-nos alegres. Um sorriso, uma palavra ou um momento partilhado podem fazer a diferença no dia de alguém, lembrando-nos que os pequenos gestos têm um grande valor. Ficamos mais ricos e felizes ao saber que contribuímos para um mundo mais humano. As pessoas que se prestam desinteressadamente a ajudar os outros sofrem menos de ansiedade, dormem melhor e mantêm uma perspetiva mais favorável da vida. Recorde-se a receita da escritora francesa Simone de Beauvoir: "Dedicarmo-nos a pessoas, a grupos ou a causas, e viver uma vida de entrega e de projetos".

Rita Rabaça
Outubro 2026

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