Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"À procura do Eu"

A história da colonização portuguesa marcou a minha vida com um entrecruzar de culturas e vivências, por vezes difíceis de integrar numa identidade única e definida, numa referência, numa raiz.

Os meus pais nasceram em Goa (colónia portuguesa na altura), fizeram a sua formação em Portugal, casaram e foram viver para Angola, onde eu nasci no Lubango, em 1958.

Como os hábitos, crenças, valores e costumes eram diferentes dentro e fora de casa, eu questionava-me, quem sou eu? Indiana, Angolana, Portuguesa? Eu era diferente das indianas na Índia, das angolanas em Angola e das portuguesas em Angola. Era difícil ser diferente, quando eu queria ser igual à coletividade para encontrar e saber quem eu era.

A nossa vida familiar de 20 anos, construída e estabelecida com trabalho, luta, coragem, criatividade, e educação como investimento na geração seguinte, para que pudesse seguir para a frente, foi desmoronada abruptamente pelo processo de descolonização de Angola. Viemos para Portugal deixando todas as conquistas para trás, trazendo unicamente a língua portuguesa dentro de nós e a conexão administrativa, a nível da educação e do trabalho, como elo de ligação e de pertença a Portugal.

Eu fazia parte de um movimento migratório de retorno a Portugal, mesmo sem ter lá estado antes. Mais uma vez não me sincronizava com o que acontecia à minha volta. Iria agora ser portuguesa? Por pertencer a uma família que tinha nascido e vivido em ex- colónias portuguesas?

Não me senti bem-vinda, a adaptação foi difícil, mas a alta resiliência do meu pai fez com que continuássemos em frente e eu tivesse finalizado os estudos e iniciasse a vida no mundo do trabalho.

Em 1992 decidi ir a Goa conhecer os meus familiares, em continuação da busca da minha verdadeira identidade. Fui muito bem acolhida, com muito amor, senti-me bem, tive a sensação de ter chegado a casa, as semelhanças eram mais do que as diferenças. Estava em Santa Cruz, terra natal da minha avó materna. Aqui aconteceram 2 episódios que me fizeram ficar em paz com a questão da identidade:

- numa tarde quente e húmida, fui sozinha a uma mercearia perto da casa da minha avó. Fui abordada por uma senhora desconhecida que me perguntou gentilmente: o seu formato do queixo é da família dos Viegas de Taleigão. Você também é boa a matemática? Eu estupefacta com uma senhora do outro lado do meu mundo ser tão próxima de mim, respondi: sim o meu pai é da família Viegas de Taleigão e é muito bom a matemática.

- uma manhã, a minha avó levou-me para a cozinha para me ensinar a fazer a massa para pastéis, como só ela sabia fazer. Foi-me dando indicações para aproveitar o facto de estarmos juntas, pela primeira vez, para transmitir-me segredos culinários da família. De repente fez-se silêncio e a minha avó disse-me: mexes na massa como a tua bisavó, que pena que não a conheceste.

Para finalizar estes pequenos grandes momentos que me aumentaram a consciência de mim própria, fui a Banglore (sudoeste da Índia) para conhecer uma prima. Aconselharam-me visitar um templo hindu numa montanha muito alta. Cansada fisicamente da subida, com o vento frio cortante a bater-me na cara, estava a meditar, senti uma emoção avassaladora, o bater do coração não cabia no corpo, o tempo, o espaço e os limites esbateram-se numa unidade maior, fiquei bem, acompanhada, inteira e completa, não sei quanto tempo se passou, talvez segundos, minutos? Desci a montanha, estava bem finalmente.

Voltei para Portugal, a vida continuou, é aqui o meu lugar agora.

Com o decorrer do tempo e da vida, tenho consciência de que todos temos algo inerente em nós, intransponível, e que, através da sua abertura, e de nos dispormos a sermos mais vulneráveis à vida, podemos nos permitir ter experiências verdadeiras e reais, que nos transformam, cada vez, mais em quem somos de verdade, muitas vezes muito mais do que pensamos que somos. Afinal nós somos vida, a nossa casa é a vida!

Silvia Viegas
Março de 2026