Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro
Viajar na Memória da Criança em Mim

Todos os anos, o mês de setembro era reservado para as férias na terra natal da mãezinha. Os preparativos começavam cedo, principalmente na cozinha onde era necessário empacotar, colocar em cestos e sacos, o que a mãezinha entendia ser preciso para os 30 dias passados na aldeia.
A meio da manhã, o paizinho trazia o
Ford Prefect azul para a porta da casa e era um vaivém de sobe e desce com as
malas, os sacos, os cestos e uma parafernália de coisas que a mãezinha pensava
ser necessário. Terminado o acomodar de todos os volumes nos espaços livres do
automóvel, seguia-se os passageiros: a mãezinha à frente, atrás a Antonieta, o
meu irmão e ao meio, eu. E por fim o paizinho, mas só após um sem número de
esquecimentos, de entradas e reentradas, de subidas e descidas… pronto, é
agora! O paizinho chegava, abria a porta do carro, sentava-se:
- Fui buscar os óculos! – dizia, com
o seu ar sereno e sorriso na cara, como que a pedir desculpa. De repente levava
a mão ao bolso do casaco.
- Ah! Falta-me a carteira! - dizia
num misto de afirmação e interrogação de quem não se lembrava onde a tinha
deixado
- Eu vi-a no quarto – dizia a
mãezinha já em tom impaciente. O paizinho saia do carro, subia as escadas,
ouviam-se passos apressados no soalho do 1º andar, para lá, para cá, a descer,
finalmente surgia à porta brandindo a carteira na mão, enquanto toda a família
suspirava de alívio. Íamos finalmente partir.
Iniciada a viagem, sentava-me na
borda do assento, com as mãos apoiadas nos bancos da frente, olhava a estrada:
- Olha um coelho - dizia o paizinho –
e desfilavam, invisíveis coelhos, lebres, gatos, galinhas e todos os animais
que o paizinho se lembrava, para que na viagem tudo corresse bem.
A visão das fontes majestosas de granito enegrecido, as curvas e contracurvas da subida para Castelo de Vide, a Senhora da Penha lá no alto vigilante, prenunciavam que dali até à aldeia, era um pulinho. À saída da vila, depois da "casa de madeira" entrava-se na estrada sinuosa, a mais bonita da região (ou de Portugal e porque não do mundo?), ladeada por enormes árvores que se abraçavam de um lado ao outro, sombreada e fresca, onde de quando em quando surgia por detrás do arvoredo ora um palacete pintado de amarelo ocre ora mais além, um conjunto de casas brancas. Seguiam-se as "árvores fechadas", um quilómetro de estrada, cortando ao meio um prado verdejante, no sopé da serra, ladeada de choupos que se tocavam, e através dos troncos, com a sua lista branca, via-se, de um lado os enormes afloramentos graníticos e do outro, espreitando do alto do rochedo e por detrás da muralha, as casas brancas da vila de Marvão.
Após mais um pedaço de estrada, onde já se sentia o cheiro floral e fresco, a "aldeia da mãezinha".
O paizinho estacionava o carro e logo surgia a avó, com o seu rosto marcado pela vasta passagem dos anos, vestida de preto, com o seu avental cinzento de chita, as mãos cruzadas sobre o regaço, sorriso nos lábios finos e uns olhinhos brilhantes por detrás de pálpebras descaídas, na sua postura discreta e serena, ao lado dela, a ti Mónica, a empregada que acompanhava a família sempre que lá estávamos, numa postura semelhante à da avó, mas colorida, nunca tinha casado, magra, seca de afetos, sempre apressada, com um medo terrifico das trovoadas e que, quando isso acontecia era vê-la nos seus afazeres, chorando e rezando a "Santa Bárbara bendita que no céu está escrita …" até a mesma se dissipar, enquanto o paizinho sorria àquela cantilena e eu olhando-o, acalmava o meu medo e sorria também.
Entrando pela "casa das lajes", sala sombria e fresca onde ao fundo por detrás de uma grande e tosca mesa de abas, se encontrava a arca que quando se abria fazia sentir o aroma do pão caseiro misturado com o da madeira crua. Ao lado da porta a janelinha típica da aldeia com a sua portada de madeira grossa e entre elas o lavatório de madeira com a bacia e o jarro de zinco colorido. Do lado direito, a porta de acesso à cozinha onde pontuava a lareira com o lume de chão, a trempe com a panela ou o tacho em cima, as cadeiras baixinhas, o mocho, a mesa pequena e baixa, a janelinha com a portada de madeira e um postigo pequenino. Aos olhos da menina era quase uma cozinha de brincar, mas não de brincadeira, ali se tratavam os perus, as galinhas, os patos e o que mais se iria devorar durante a estadia e onde nunca havia fastio.
Mal se chegava e já a avó tinha a mesa posta, na outra sala, a parte nova, por onde se entrava por um pequeno e baixo túnel conseguido sob a escada de caracol que levava ao 1º andar. Antes desta passagem, a estante dos cântaros, mais precisamente dois cântaros e um pote de boca larga com uma caneca de esmalte em cima da tampa, de onde se retirava a água fresca mesmo no verão mais quente, por conta do barro e da água da fonte da Calçada. Era na camilha, com a sua saia florida, que se tomavam as refeições. Para mim, a ceia foi a que perdurou na memória, aliada aos passeios pela aldeia, depois de jantar, ou aos jogos de cartas, os tios, os primos, os amigos que ali se juntavam, e onde todos, a meio do serão, bebiam chá de tília ou lúcia-lima, comiam pão com queijo, morcela, paio, bolo, o que na altura havia na despensa, e onde se trocavam conversas e risos e onde por vezes o tio António nos brindava com o som cantante da sua guitarra portuguesa.
Depois de arrumados todos os sacos,
cestos e malas, dizia:
- Mãezinha posso ir à ribeira?
- Ainda não, a Antonieta tem que ir
primeiro à fonte e só depois pode ir contigo.
Na aldeia havia luz elétrica e uma insipida iluminação pública, mas não havia água canalizada o que nos obrigava a ir regularmente à fonte, sendo a preferida a da "calçada", a 100 m da casa e após uma subida íngreme de um caminho medieval, calcetado de pedras largas e irregulares, que levava à vila de Marvão, 3 Km mais acima.
A ti Mónica, de cântaro numa mão e rodilha na outra que, serviria para o trazer cheio, equilibrado na cabeça, a Antonieta, moça cheia de força nos seus 18 anos, sempre alegre e brincalhona, com os seus olhos claros e um cabelo enorme e farto que apanhava ora num rolo no alto da cabeça ora em grossas tranças que prendia enroladas na nuca, trazia igualmente uma rodilha onde já equilibrava o pote deitado. Eu, imitando-as, ia buscar uma cantarinha que levava na mão e uma rodilhinha de feltro vermelho que tentava equilibrar no alto da cabeça, o meu irmão, dois anos mais velho, acompanhava-nos levando pela mão uma bilha espanhola com duas bicas.
Ir à fonte era tão divertido como ir à ribeira. No caminho, entre risadas e corridinhas, íamos saltitando de pedra em pedra, procurando as mais lisas e largas, por entre muros de pedra solta que os anos iam agarrando umas às outras. Uma curva e no concavo de uma outra, lá estava a fonte da "calçada" com o seu pequeno tanque de pedra escura e a bica de ferro, de onde jorrava uma água fresca.
Enchiam-se as vasilhas, mas antes bebíamos daquela saborosa água pelas mãos em concha.
Trepava aos poiais que ladeavam a fonte e subia, através dos degraus de pedras salientes, ao cimo do muro, para espreitar o grande tanque, por detrás da fonte, com as suas grandes pedras inclinadas, por detrás das quais mulheres ajoelhadas iam não só lavar a roupa, mas também pôr a conversa em dia. Dali, desfrutava-se de uma paisagem onde os olhos não se cansavam de perscrutar a beleza do rio Sever que corria lá em baixo entre margens do verde intenso das numerosas hortas, das aveleiras, das nogueiras e dos soutos de castanheiros. A meio da encosta, serpenteava a estrada para Espanha, cujo negro se vislumbrava através do arvoredo que a ladeava, e como cenário de fundo, a serra coberta de pinheiros. A acompanhar as curvas do rio, a estrada da Ponte Velha, para lá da qual se iniciava o caminho dos contrabandistas até à Fontanheira, aldeia espanhola da raia, que mais tarde haveria de a percorrer, já adolescente, com o grupo de amigos, desafiando com gargalhadas e cantorias os Guardas Fiscais que vigiavam estas paragens.
Com os cântaros cheios de água fresca, na descida ingreme, procurando mais uma vez as pedras grandes e lisas, ouvia-se ao fundo o grunhido de porcos nas suas pocilgas, sinal de abundância de carne depois da "matança" que se efetuaria assim que o frio de inverno chegasse, por fim ultrapassada a enorme figueira da índia com os seus frutos amarelo alaranjado, cobertos de picos, as casas, o forno comunitário, onde a mãezinha iria como sempre cozer o pão que ela teimava em amassar, por fim a estrada, com os poiais das casas recuadas que antecediam a da avó e eram o palco de muitas brincadeiras.
Acomodados os cântaros na estante, era chegada a vez de ir à ribeira, agora munidos de baldes e jarros que serviriam para as lavagens
- Não se demorem, o almoço está quase pronto – dizia a mãezinha olhando para a Antonieta que seria a responsável por regressarmos sem mazelas e secos e sem nos perdermos nas brincadeiras.
O pequeno terreiro antecedia a levada e a ribeira e era para mim um lugar especial, mítico no qual a fantasia exacerbava a imaginação: as casas humildes com os seus poiares a ladearem as portas encimadas por umas pequenas janelas, onde era possível imaginar mães sentadas vigiando as brincadeiras dos filhos, ao mesmo tempo que aguardavam a chegada dos maridos vindos dos pinhais. A horta que ladeava a "levada" onde cresciam as batatas, o feijão, o tomate, os pimentos entre muitos outros e os animais de criação que alimentariam as famílias durante o ano. A enorme figueira, testemunha de várias gerações, de figos brancos de polpa rosada se verdes ou dourada se maduros e doces, que quando colhidos da árvore deitavam no seu pé uma seiva leitosa.
A "levada", desviado do leito do rio para alimentar as azenhas e regar as hortas, corria paralela à ribeira, chegada ali era mansinha, de águas transparentes e leito arenoso, passava por baixo de uma parede alta, levando a fantasia para lá desta, transpunha-se por um pontão de madeira que não só balouçava e era mote para brincadeiras como permitia, sentados, molhar os pés e salpicar quem estava próximo por entre risadas e gritos de alegria.
Um grande portão de madeira, permitia a entrada na quinta, lugar de mistério, com a sua casa grande de paredes ocre e ombreiras brancas; as vacas leiteiras, cujo leite depois de fervido deixava uma gostosa nata espessa; a azenha, com a sua roda grande que a água fazia girar, movia lentamente as mós que iam esmagando o grão de trigo até o transformar na farinha que iria dar origem ao pão caseiro, que " sabia como nenhum outro"; a quinta propriamente dita, com os seus canteiros de flores, o bosque de arvores frondosas e ao fundo, encostada a uma parede e aonde se chegava por uma álea rodeada de flores e aromas, à fonte com o seu grande tanque onde se inclinavam pedras de lavar.
Passado o pontão sobre a levada surgia exuberante, a ribeira que se espraiava através das margens baixas, verdejantes. Dava-se a perceber pelo ruido da água a correr e os aromas da hortelã do rio, dos poejos que verdejavam nas suas margens. Os patos, com as suas cores brilhantes, deslizavam, ora na "levada" ora na ribeira, elegantes e altaneiros, mergulhando o bico para se refrescarem ou para se deliciarem com um qualquer alimento e tão deselegantes quando deambulavam nas margens, grasnando numa conversa interminável.
Quantas e quantas vezes eu,
regressando das brincadeiras na aldeia dizia:
- Mãezinha, vou à ribeira lavar os
pés! – e a mãe contrariando a rigidez habitual dos dias fora da aldeia,
respondia sorrindo
– Não te demores! e era o suficiente para eu
sair correndo feliz.
A ribeira, como uma mulher que gera vida, suave, murmurando, marulhando, acariciando as margens verdejantes, de relva rasteira e árvores centenárias, ora formando bosques cheios de sombra e aroma como o das aveleiras, quer em fila, ladeando a margem, como as altaneiras faias, no largo das Almas, mas sempre perfumada como se de uma mulher/mãe vaidosa se tratasse. A ribeira, chamada simplesmente assim, vinha nos mapas nomeada como rio Sever, nascido na serra de S. Mamede, afluente do grande rio Tejo e fazendo fronteira com Espanha ao longo de grande parte do seu percurso até desaguar junto da barragem de Cedillo em Espanha.
Era uma aventura, atravessa-la para a outra margem: pelo seu leito de águas suaves, mas repleto de seixos ou pelo passadiço feito de grandes pedras separadas pela largura de uma passada por vezes tão larga que me obrigava a saltitar de pedra em pedra esperando não cair ou com sorte só molhar os sapatos. Que alegria chegar ao outro lado sem percalços e seguir pela margem, ora em vereda bem delineada, ora por cima do muro, que ia terminar na enorme laje, acinzentada com laivos dourados, lisa e plana junto da ponte "romana".
A ponte "romana", define a paisagem da aldeia e determina a sua história medieval de fronteira com o pais vizinho, alfandega onde se pagaria a "Portagem" pela passagem de pessoas e mercadorias. Mais à frente a represa em madeira onde banhistas aventureiros e destemidos tomavam banho nas águas geladas mesmo nos verões mais quentes, protegidos do sol por um admirável bosque de salgueiros, "chorões", árvores antigas, de copas largas e ramagem tão delicada como lágrimas.
Atravessada a ponte, o largo das Almas, enorme terreiro de terra batida atravessado num dos lados pela estreita estrada alcatroada, que o separava dum terreno agrícola de semeadura e olival e do outro as enormes faias e mais uma vez o som musical da água deslizando entre margens verdes pontuadas de cor pelas flores espontâneas que surgem aqui e ali num querer só delas.
A pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Rocha, com uma pequenina torre sineira, marca o terreiro, vigiados pelas altaneiras fragas da serra de Marvão confundindo-se com a muralha, deixando ver aqui e além uns apontamentos brancos ou vermelhos do casario. Respirava-se ali um ar diferente de um qualquer outro lugar, místico, primitivo e ao mesmo tempo sensual, indefinido. Mais tarde alguém o definiria como telúrico pela influência da serra granítica de Marvão, talvez…
E agora …
A viajante, muito mais terá para contar porque o futuro é já ali, mas o colo da minha mãe permanece nas águas que correm, ora suavemente ora em turbulência, no rio e nas fontes, deslizam e fortalecem, florescendo e guardando a inocência em mim.
Maria
Emília Lourenço
Março
2026
