Desafio "Viajar para fora,

viajar para dentro"

Casa do Penedo, Fafe                                     Encosta da Caniçada, Gerês                                      Barragem da Encosta                                                                                                                                                                                  da Caniçada



Refúgios da Alma no Coração do Gerês

No dia 14 de fevereiro de 2026 voltei, passados 10 anos, às terras seculares que delimitam o Gerês, atravessando as reminiscências das geiras romanas e percorrendo os caminhos esculpidos por pedras, histórias e enredos que ecoam nestes lugares de encantamento. No caminho, detive-me em Fafe, respirando as paisagens de montanha e pedra onde o tempo parece ter parado, em construções singulares como a Casa do Penedo, hiato apenas cortado pelas turbinas eólicas gigantes que nos relembram as demandas do tempo moderno.

Recorrendo à memória dos tempos amorosos vividos na Encosta da Caniçada, foi com uma alegria e nostalgia que trepei pelas colinas das quelhas, outrora cobertas por árvores frondosas, e constatei os efeitos impiedosos da recente tempestade Kristin, que obrigou ao corte das árvores e ao desfiguramento da paisagem. Associei esta devastação repentina ao corte das relações humanas que, num segundo – por palavras impensadas ou atitudes menos refletidas – provocam devastações semelhantes às que agora presenciava.

Percorri em silêncio e debaixo de uma chuva miudinha, os locais onde ainda existem fojos de lobos ou de raposas matreiras, zonas de encostas onde se vêm javalis ou cavalos selvagens e senti que apelavam ao animal sensível que em mim habita.

Sentei-me numa pedra redonda, filha de um penedo maior, contemplando a força da água que passava pelo seu calvário apertado de descargas da Barragem da Caniçada e desprendi-me das nevroses do quotidiano. A mensagem da água, enfim liberta, apelava para o salto mortal que é necessário assumir, para nos libertarmos do nosso caudal de emoções e ilusões acumuladas do que significa realmente ser livre, sem medo de cair no vazio ou das repercussões que essa decisão possa acarretar.

Foi assim como uma declaração de amor renovado, proferida num ambiente paradisíaco quase divino, que me relembrou os valores universais da Natureza e de que é necessário transformar a consciência individual, para sermos verdadeiramente livres e responsáveis pela transmissão deste legado para um futuro sustentável.

Lurdes Duarte

14 de fevereiro 2026