Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

O Som das Andorinhas
Viajei no verão passado para mais um ponto de Itália, que ainda me era desconhecido, a Perugia, mesmo no centro, no coração do país, em plena Umbria. Para além dos já habituais monumentos e história que Itália oferece, encontrei um centro de cultura com muitos museus contemporâneos, muitos eventos musicais, tecelagem e vidraria, muita vida de rua, arte urbana, novidades gastronómicas, vistas maravilhosas, de vários pontos da cidade, e proximidade, sempre a "uns passos" de comboio de outras cidades ou localidades que visitei neste período, alguns em plena época de festividades locais, como a festa das flores "L'infiorata" em Spello, uma procissão em Assis e um concerto na catedral de Orvieto, cidade que, tal como a Perugia, têm outra cidade, a antiga, ou parte dela, debaixo de chão, em grutas, ainda algo preservadas.
E assim, num momento de transformação profunda fui por mero acaso dar a este sítio que em tudo parece que me estava destinado, pelo menos naquele momento, nas duas semanas em que aqui ali estive. Foi longa a viagem até lá chegar, desde logo cedo ainda madrugada, com direito a voar, para depois apanhar dois comboios, oito horas ora sobre nuvens, ora sobre carris, com prados e montanhas para observar. Silenciosa esta viagem, introspetiva, desejada, depois de outras viagens mais atribuladas, que deixam ruído e torpor, o destino era o descanso.
Logo à chegada avistei no morro o convento e à sua aproximação senti o silêncio, abriu-se portão, porta e janela, e a vista era a mais bela. Já fim de tarde, o sol começava a descer, a luz era alaranjada, dezenas de andorinhas cobriam o céu num chilreado e voo picado, foi mais de uma hora deste espetáculo, até o sol se esconder na montanha em frente e as andorinhas se recolherem, puro deleite e certeza de que este lugar estava à minha espera. Na manhã seguinte o mesmo espetáculo, agora perante uma luz clara e uma aragem fresca, em que o recorte dos telhados, torres, árvores e varandas floridas, anunciavam dias de paz. Sem dúvida, um dos momentos mais marcantes desta viagem, o espetáculo diário de início e fim de dia, ao nascer e pôr do sol, as andorinhas a rodopiar no céu e a chilrear, um momento visual e sonoro muito impactante, que tinha o privilégio de ver da janela escancarada do meu quarto, é caso para dizer um quarto com vista.
Quase todos os dias me sentava de frente para esta janela ou no jardim abaixo dela, de manhã ou ao por do sol, a escrever, a ler, a ver, a ouvir, junto com as andorinhas, uma música clássica de fundo que saía de alguma outra janela, e a mim, à minha voz interior, aos meus pensamentos, e a sentir a calma e a paz que este lugar me trazia.
Luísa Pires
