Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"O meu Evereste"

Este é aquele título que nos aguça a curiosidade, nos desperta os sentidos para o sonho, nos leva instantaneamente ao topo da montanha mais alta do planeta, e quase, quase sentimos o frio intenso na cara, a respiração que tenta esforçadamente engolir o pouco oxigénio, as pernas que fraquejam pelo cansaço, e a paz no corpo que teima em libertar o acúmulo de dopamina.

Cada um de nós tem o seu próprio Evereste, aquele desafio bastante difícil, quase inatingível. E podemos ter vários. Somos uns sortudos! O planeta só tem um, já nós, podemos ter tantos quantos quisermos.

O meu Evereste, esse, foi-se insinuando, fez-se coincidir com momentos, tais como ter-me cruzado em Outubro de 2023, em Catmandu no Nepal, com o João Garcia, o nosso maior alpinista. Outra coincidência à data, foi já ter uma cirurgia ortopédica marcada a final de Novembro para substituir a articulação coxofemoral por uma prótese, que o médico, ao saber seis meses depois, do meu Evereste, me pediu para tratar com carinho, e eu assim fiz, treinei-a e dei-lhe uso.

Antes e depois, houve outras coincidências que me fizeram finalmente sonhar com ir à montanha mais alta onde é possível ir a caminhar até ao topo, sem técnicas de escalada. Tenho medo de alturas e o quase inatingível, não tem de ser logo inatingível por escalada. E assim me surge o Aconcágua, nos seus quase 7000 metros de altura.

Agora, o quando e o como. Não sabia nada, fui aprender, não tinha preparação física, fui treinar, e acima de tudo fui inventar motivação constante para não desistir a meio do caminho, nem dos treinos. Não, não consegui ir ao cume do Aconcágua, mas fiz tudo o que consegui para lá chegar. E isso, para mim, foi uma conquista terrível e a maior lição de humildade que poderia ter. Não há palavras que o consigam descrever.

Fui aprender, através de opiniões e relatos na internet, e sobretudo nos livros do João Garcia, e com ele. Recordo-me da cara que fez quando, numa das viagens me perguntou porque tinha decidido ir, e eu lhe disse que tinha ido aprender com ele. E o quanto aprendi!

Lendo, aprendi que precisava de fazer treino aeróbico. Pela falta de cartilagem nos joelhos não era aconselhável correr pelo que aprendi sobre alternativas e executei em bicicleta estática. Natação seria uma alternativa, não fosse a minha rigidez esquelética que me faz parecer uma enxada a arrastar os pés perto do fundo da piscina. Muito cansaço para pouco resultado. E também fiz muitas caminhadas de 15 e 20 km com 8 kg em mochila às costas, como era genericamente aconselhado. E escadas, muitas, subir e descer, moro num quinto andar, tive sorte. Fui fazendo aquilo que apelidei de treino de circunstância. Fui-me adaptando ao que ia aprendendo e aparecendo. Comecei em Junho a treinar, mas só depois do cirurgião não me ter desaconselhado vivamente. Lá está, trate-me essa prótese com cuidado, disse ele. Tenho a certeza que se me tivesse apresentado razão medica impeditiva, eu teria terminado logo ali o objetivo. Iria para outro! Não pode haver heróis nestas abordagens, não temos de provar nada a ninguém, só a nós próprios e o fundamental é viver.

Dois meses depois, estabeleci então a data do Aconcágua a Janeiro de 2025, porque, mais uma vez fruto das circunstâncias, o João Garcia ia fazer duas viagens, a primeira aos Himalaias em Outubro/Novembro de 2024 e a segunda ao Kilimanjaro em Novembro/Dezembro de 2024. Estava fechado o plano!

Não sem antes ter verificado se os meus 63 anos à data eram autorizados no Aconcágua, já que alguns destes locais não aceitam malta com prazo de validade.

Porquê Janeiro e não outro mês qualquer? Porquê ter de fazer as outras montanhas? Todas as montanhas têm épocas aconselhadas de visita, em que as condições climatéricas são mais favoráveis, em que não nos expomos a tantos riscos potencialmente fatais. Mesmo no início de Janeiro as previsões à data apontavam para sensações térmicas de -40ºC no cume do Aconcágua. Claro que quando o vento diminui, isto vem para os aconselhados -19 a -20ºC, o que se verificou, apesar de não ter tido o prazer dessa sensação.

Porquê as duas montanhas anteriores? Porque li num dos livros do João Garcia que o corpo demora cerca de 3 a 4 semanas a perder a aclimatação, ou se quisermos, a habituação à altitude. E também li em vários sítios que não se deve ir para um 7000 sem antes ter experimentado um 6000. E magicamente, como que por destino, as viagens aos Himalaias e ao Kilimanjaro alinhavam-se nos seu cerca de 5500 m e 6000 m, em escadinha até aos 7000 m do Aconcágua.

A aclimatação é o que nos pode proteger do chamado mal da montanha, tipicamente dores de cabeça, náuseas, vómitos, falta de apetite e de sono, além de potenciar uma menor diminuição de oxigénio no sangue. E por isso as subidas se fazem em lamina de serrote. Sobe-se a um ponto para aclimatar e volta-se a descer, no dia seguinte vamos para essa nova altitude, subimos mais um pouco acima e descemos, e assim em diante até ao objetivo final. Quando descemos de vez é tudo mais rápido.

Plano feito, treino a ser executado, estava a chegar a hora real de partir, primeiro para os Himalaias, depois Kilimanjaro e então Aconcágua. Confesso que antes dos Himalaias tinha algum receio das pontes Himalaias. Tenho algum respeito às alturas, e apesar de serem apenas 60 metros no máximo, estava apreensivo. O que despareceu por completo naquele ambiente fascinante dos Himalaias. Não há tempo para pensar em problemas de alturas, é tudo tão espetacular, que nos esquecemos do resto. Foi e será para mim, o mais belo trekking do mundo.

As paisagens dos Himalaias, os caminhos de trekking, todas aquelas montanhas monstruosas que se vão insinuando à medida que caminhamos, os declives, o começo da minha aventura não podia ter sido melhor. E ir com o mestre João Garcia, não podia esperar mais.

Mas nem tudo foram facilidades. As monções, tão habituais naquela região em Outubro, tinham destruído grande parte da infraestrutura rodoviária. Houve que decidir, ou voltávamos para trás, ou íamos à procura de alternativas. O voo entre Catmandu e Lukla, o trajeto habitual, já não era possível. Assim tivemos de fazer 10 horas de autocarro para no dia a seguir sermos encaixados em 3 jipes a derrapar pelos caminhos lamacentos serpenteando os montes, até sermos transferidos, 15 pessoas, para um único jipe que iria então fazer os 7 km finais num verdadeiro caminho de cabras, aos saltos por ali fora.

Estávamos só a começar, e já era uma aventura.

Quando passei o portão de entrada no parque Nacional de Sagarmatha, também conhecido como Parque Nacional do Monte Evereste, foi um momento único de emoção, o verdadeiro início do Meu Evereste. Entra-se num paraíso natural de paisagens deslumbrantes, que não apenas pelas montanhas em redor. Todas as montanhas emblemáticas do mundo, estão inseridas num parque ou zona de acesso controlado, em que para além da portagem, normalmente só se pode entrar com guias autorizados. Aqui não era diferente.

As caminhadas pelos Himalaias em direção ao Kala Patthar, o nosso objetivo, foram exigentes fisicamente, mas o grupo estava coeso e animado, estávamos todos focados também em ir apreciando as belezas naturais, e não pensar nos efeitos da altitude. Um dia até caminhámos um pouco ao som dos U2, emitido pelo meu telemóvel, o que me deu um ânimo adicional.

As dormidas eram feitas em lodges, edifícios básicos que disponibilizam, divisões simples, casa de banho comum e quartos. Têm uma sala com aquecedor ao meio e que muitas vezes serve de sala de refeições e de dormida para os donos e os guias. Ás vezes há cobertor para colocar em cima do saco cama, outras dorme-se vestido dentro dele, mesmo com o cobertor por fora. Depende do frio. É assim mesmo, há que adaptar. Um luxo, era também ter um colchão para encostar as costas.

As refeições andavam muito à base de papas de aveia e ovos mexidos ou cozidos ao pequeno almoço. Frango muitas vezes, momos também, e o belo do Dal Bhat. O que é o Dal Bhat, farão a descoberta com uma simples pesquisa, se não souberem o que é. Um chocolatezinho ou uma bolachinha de vez em quando, também foram aparecendo.

E descobri igualmente o valor energético da coca-cola em montanha, para mim de vez em quando dava-me um vigor adicional, isso, ou um Snickers. Mas só de vez em quando, até porque o preço vai subindo à medida que nós também vamos subindo. Não há estradas, tudo é transportado às costas de pessoas ou animais, de onde destaco os imponentes iaques. Esse foi outro dos aspetos marcantes desta viagem, ver pessoas com 30 kg às costas por ali fora a caminhar, muitas vezes com calçado que nós vamos deixando ficar porque já não tem sola em condições, ou abriram à frente. Também vi malta de chinelos. Impressionante.

Igualmente impressionante foi o trekking até ao acampamento base do Amadablan. Dali, tem-se uma vista privilegiada para o Amadablan, uma montanha de silhueta lindíssima. Há imensas fotografias na internet, também tirei!

Já na parte da tarde do dia anterior à ascensão ao KalaPatthar, um miradouro natural para o Evereste, comecei a hiperventilar, provavelmente fruto das noites mal dormidas, do cansaço acumulado por essa via. Também estava um pouco nauseado desde manhã. Tudo isto estava dentro dos previstos males da altitude. Tive de decidir, ou continuava e punha em risco o meu objetivo final, ou descia e esperava um dia pelo resto do grupo na bela cidade de Namche Bazar a 3440 metros de altitude. Não há heróis, a segurança e a saúde em primeiro lugar, por isso desci e aproveitei para visitar sozinho, um templo budista e, por sugestão do João Garcia, encomendar uma cerimónia de lâmpada de manteiga. Venho depois a aprender que tem a ver com luz, purificação da mente e compaixão. Seguramente há outras justificações, mas estas marcaram-me.

No dia seguinte, já vamos todos até Lukla, a pé, claro, para apanhar o voo de volta a Catmandu. O tempo continuava mau e tivemos de esperar um dia até finalmente se tomar a decisão de pagar e sair dali para fora de helicóptero até Phaphlu, e daí 10 horas de autocarro para vencer os 270 km até Catmandu, e finalmente voo para Lisboa.

Estava terminada a primeira montanha!

Foi muito gratificante, e como disse não há palavras para a beleza natural dos Himalaias.

De lições, trouxe que precisava de treinar um pouco mais de aeróbica e um indutor de sono também ajudaria. Mas principalmente, deveria escutar melhor o meu corpo, devia ouvir-me mais e melhor. O corpo queixa-se por alguma razão, a mente também!

E as 3 semanas seguintes foram passadas a treinar, para chegar mais preparado ao Kilimanjaro.

O Kilimanjaro esse emblema de África, esse lugar mítico da Tanzânia, que se insinua em silhueta no filme do Rei Leão. Akuna Matata.

E lá vou eu, vinte e tal dias depois, com outro grupo de portugueses, a caminho da Tanzânia para a aventura Kilimanjaro. A aventura começou mal chegámos ao aeroporto de Moshi, as malas com o grosso do material de trekking tinham ficado em Amesterdão. Tudo pacifico, dos Himalaias já tinha trazido a certeza de nos temos de adaptar. Tínhamos de ir alugar algum equipamento e comprar algumas meias e roupa interior para 4 dias, até os transportadores conseguirem apanhar as malas no aeroporto e levá-las às costas até ao acampamento onde estivéssemos.

Sim, acampamento. Desta vez não haveria 4 paredes como nos Himalaias, mas tendas duplas, e individuais e tendas para a cozinha e o refeitório que também servia de sala de convívio, estas duas bem maiores.

Antes de sairmos para o trekking, no dia anterior, livre, alguns de nós ainda fomos visitar a cidade e um mercado local. Impressionante, a diversidade de cores das frutas, dos cachos imensos de bananas, dos legumes, do peixe seco, da carne, das moscas visitantes, também elas a apreciar o cenário, mas com intenções diferentes das nossas. Os cheiros, esses ficam, misturados com uma penumbra de poeira aqui e ali.

Nas diferentes rotas do Kilimanjaro, também não há estradas, só estes caminhos. E também não há lojas, daí ser fundamental levar o que se precisa, como em qualquer montanha. E voltamos a ter carregadores que nos levam o material pesado, até 12 kg, e levam também os alimentos e água que vamos consumir nos acampamentos. Nos Himalaias a nossa carga pesada, saco cama, casacos, barras energéticas, etc, era transportada por iaques, aqui por pessoas.

Fomos então, acampamento a acampamento, 4 no total, até ao cume do Kilimanjaro. Estas expedições com tendas, fazem-se tipicamente em 4 acampamentos, nas mais exigentes, onde há alpinistas envolvidos, os verdadeiros aventureiros, o primeiro acampamento é chamado de acampamento base, uma cidade em montanha, de repouso e preparação. Com tudo o que é necessário! No Aconcágua, por exemplo, até há uma tenda galeria com exposição de pinturas.

No acampamento 2, recebemos então as malas com o nosso material, retiramos o que precisávamos e as malas voltaram a ser transportadas às costas para baixo outra vez.

Desta feita, o indutor de sono já me ajudou um pouco a conter o cansaço físico. Também são aqui metade dos dias dos Himalaias, sendo o último dia, o da ascensão ao Uhuru Peak, o mais exigente por termos de vencer nesse dia cerca de 1100 metros de subida. Sai-se de noite, com um frontal na cabeça, para vermos bem onde pomos os pés, e anda-se ao ritmo pole-pole, um pé à frente do outro, ou como dizia o João Garcia, o calcanhar do pé que avança não pode ultrapassar a biqueira do pé que fica. Devagar devagarinho, assim se faz o caminho!

Quando estamos a chegar ao Stella Point, a 5756 m, nasce o sol. E que cores. Não é só pelo nascer do sol, mas as cores em África são diferentes, têm alma. Ou talvez fosse do cansaço! Daí até ao Uhuro Peak foram mais duas horas de caminhada e cento e tal metros de desnível. Chegámos, tirámos a foto da praxe, descansámos, comemos, bebemos qualquer coisa, e voltámos a descer.

Fartei-me de cair ao início, e tive de descer alguns troços apoiado. Caía porque levava um ténis no pé esquerdo e uma bota no pé direito. Porquê? Porque raio alguém vai ao Kilimanjaro com calçado diferente? É simples, quando preparei o material para o Kilimanjaro, arrumei uma bota minha e outra da minha mulher. São muito parecidas. Enganei-me. Felizmente não eram do mesmo pé, porque deu para tirar a palmilha, enfiar lá o pé como pude e subir. Assim que o pé assentou na neve, apesar dos crampons deu bem para sentir o frio por baixo. Faltava-lhe a palmilha. Ainda andei uns meses com pouca sensibilidade nos dedos desse pé.

O ténis? Esse levei-o para substituir a bota, porque imaginei que a descer com o pé tão apertado iria ficar sem dedos, e ainda tinha o Aconcágua pela frente. Mas escorreguei e caí várias vezes até me apoiarem de lado. Aprendi.

Aprendi que é fundamental verificar o material uma e outra vez, e essa foi a maior lição.

Voltei feliz por não ter sentido tanto o efeito da montanha, e ainda assim fui treinar mais um pouco nas 3 semanas seguintes. Estava às portas de ir para o Aconcágua, o meu sonho idealizado, planeado, treinado e preparado.

Ainda deu para irmos uns dias desanuviar e fazer o Bernina Express entre Tirano na Itália e St Moritz na Suiça. Aconselho. Mais um conjunto de cenários fabulosos. E gelados espetaculares. Um gelado italiano, é um gelado italiano. Não se nega.

Faço a passagem de ano, e desta vez logo no dia 1 de Janeiro de 2025, imprimo a folha de material necessário, e coloco o material todo espalhado em cima da cama e no chão. Faço a verificação, vou riscando e arrumando. Nos dias seguintes faço o mesmo. Desta iria ter falta de material.

Até porque no Aconcágua, os guias querem verificar eles próprios antes de sairmos, o material que levamos e se é adequado. Fiquei a saber em todo este processo que acima dos 6000 metros há algum material que tem de ser de outra tempera, como por exemplo Parkas para altitudes acima de 6000. Essa aluguei, são estupidamente caras. Os sacos cama também têm de ser para -18ºC a -20ºC. Os guias não deixavam sair com material que não entendessem adequado. E antes de irmos houve várias reuniões por zoom onde foram esclarecendo as dúvidas para não haver falhas.

No dia 5 de Janeiro de 2025 lá vou eu a caminho de Mendoza na Argentina, desta vez sozinho, quero dizer sem portugueses. Quando comecei a sonhar esta viagem rumo ao Aconcágua, o primeiro medo que tive de vencer foi o de saber que iria sozinho para longe. Não sou grande aventureiro, mesmo sabendo que hoje em dia as coisas são mais seguras, ainda assim é um salto um pouco para o desconhecido. Não ia fazer turismo, ia enfiar-me numa montanha com um conjunto de desconhecidos a falar línguas diferentes. Mas por outro lado, que ambiente mais propicio para um recolhimento consciente pode existir do que estarmos só com o nosso eu a maior parte do tempo?

Mendoza é conhecida pelo vinho feito com a casta Malbec. Por cá também há alguma produção com Malbec, pouca, que provavelmente já provaram.

De Mendoza saímos 11 trekers mais 3 guias, um português, um marroquino, um alemão, um francês, dois espanhóis, duas porto-riquenhas, três americanos, e os guias argentinos. E estatisticamente, apesar da amostra muito pequena, posso dizer que em cada uma destas aventuras há pelo menos um médico aventureiro. Aqui era um anestesista, nas outras eram fisiatras e clínica geral.

Fizemos 200 km de autocarro até Puente del Inca, onde ficamos a dormir, para no dia a seguir de manhã fazermos 10 km até à entrada do parque provincial Aconcágua, onde o trekking se inicia.

A entrada do parque provincial do Aconcágua fica a cerca de 20 km da fronteira com o Chile, por onde poderia também ter ido, como alguns o fizeram. É uma zona andina onde o Aconcágua se insere, além de outras montanhas, mas esta como sendo a mais alta montanha do continente americano.

Da entrada vamos 7kms a subir até Confluência, um acampamento já a 3400 m, onde ficamos a aclimatar. E fazemo-lo debaixo de 35 graus, um calor intenso já que em Janeiro é verão intenso por aqueles lados.

Aqui há uma primeira visita à equipa médica, são feitas perguntas, é mediada a saturação de oxigénio, há auscultação, e em caso positivo o nosso passaporte de trekker é carimbado para podermos continuar.

No dia seguinte fazemos uma caminhada leve de cera de 20 km, ida e volta, para aclimatar a 4000 metros e de onde podemos, num miradouro natural, ver e tirar fotografias à face sul do Aconcágua. Está ali, só 3000 metros acima. Mas não é por esta face que vamos!

A temperatura aqui já fica mais amena embora ainda quente. De Confluência saímos finalmente até ao campo base do Aconcágua. São cerca de 20 km de caminhada suave através da Playa Ancha, uma planície em altitude, que mais parece ter sido o leito de um rio há milhares e milhares de anos, ladeada por estruturas montanhosas estratificadas de um lado e de outro. No chão alguns riachos que é preciso atravessar, às vezes colocando rapidamente o pé dentro de água. Não é por ser rapidamente que não o molhamos, mas não estavam fundos os riachos.

A pior dor de cabeça são os últimos metros em que é necessário subir mais de 500 metros até ao acampamento base. Faz-se, como já sabem, em modo pole-pole. Até porque a inclinação é grande e tem de se ir serpenteando encosta acima. Chamam-lhe a parede final antes do campo base.

A sensação de ir poder habitar uns tempos num acampamento base, é indescritível. Não estava muito cansado e estava felicíssimo. O meu espanhol e inglês fluíam melhor, até me aventurei com um pouco de francês com o companheiro francês. As refeições por aqui também não são nada más, muita carne, e boa. Imaginem comer um belo fettuccine Alfredo a 4300 metros de altitude. Estava boníssimo. Mas também havia sopa para aquecer, aqui já fazia frio. E tostas e crepes ao pequeno almoço, fruta, muita. Das 3 montanhas esta foi claramente de luxo em termos de refeições. Tínhamos sempre muita água à disposição, quente também, e sumos. Os sumos serviam para misturar e puxar a vontade de beber água, já que nos era exigido beber entre 3 a 4 litros por dia. Em altitude é assim. Eu também adicionava de quando em vez, sais minerais, já que tinha lido num dos livros do João Garcia, que se a água em altitude vinha do gelo derretido tinha poucos ou nenhuns sais minerais, e por via das dúvidas…

O campo base do Aconcágua, Plaza de Mulas, é enorme, com imensas tendas, umas dezenas largas de pessoas a viver ali temporariamente, em tendas individuais ou em tendas camarata com beliches. Também tem um café bar com música onde se podem beber umas cervejas ou um copo de vinho, café ou chá se preferirem. Além da galeria de arte que já referi.

E como não seria de estranhar, assim que chegámos e largámos a tralha, tivemos de ir ao gabinete médico fazer a consulta, um a um, aqui mais rigorosa. Aqui já quiseram ver in loco os comprimidos, as dosagens e procurar os componentes químicos caso não conhecessem a medicação. Por exemplo, quem faz medicação de hipertensão, terá de reduzir a metade e/ou remover essa medicação à medida que vai subindo, porque a tensão arterial baixa com a altitude e não queremos ter alguma complicação lá mais para cima, como já aconteceu e eles agora são mais rigorosos, ao que explicaram os guias. Estava tudo bem comigo, carimbaram o passaporte de treker e seguimos à nossa vida.

Na primeira noite do campo base, quando saio a meio da noite para ir à casa de banho quase escorrego e caio. Tinha nevado, estava tudo banquinho e o espetáculo da neve e das tendas iluminadas pelo reflexo lunar é majestoso. Aliás, enquanto lá estive, nevava sempre um pouco de noite e derretia de dia. A temperatura era mais ou menos amena entre os -2ºC e os 2ºC durante o dia. À noite não sei, estávamos enfiados no saco cama. Saco cama esse que não serve só para nos aquecer, mas também garrafas de água, telemóvel e power bank que com o frio descarregam mais depressa. Uma das garrafas ficou um dia esquecida de fora e estava com gelo.

O desafio aqui, do meu ponto de vista, é que estamos sempre na rua até irmos para o saco cama, e temos de ir gerindo os agasalhos, as luvas, o gorro, o buff, etc. À noite, ao jantar ligavam, a pedido insistente, um aquecedor a gás que tinham na tenda refeitório. Até porque acabávamos por estar de luvas até chegar a refeição.

No segundo dia fomos aclimatar ao cerro Bonet a 5050 metros. Leva-se um lanche na mochila e regressamos ao campo base. Descansa-se e vamos então um dia depois levar material ao campo 1, o campo Canadá, a 5000 metros.

Na ida ao cerro Bonet temos de atravessar uma constelação de penitentes, imensos. Os penitentes são umas formações de neve endurecida, ou gelo, em forma de lamina. A mim, vistos de cima, faziam-me lembrar as claras em castelo por cima do merengue. É preciso atravessar com cuidado porque algumas zonas são escorregadias, também caímos, e não levávamos crampons nesse dia.

Aqui, no Aconcágua, faz-se em modo expedição, isto é, um dia leva-se o material mais pesado para o acampamento a seguir, e descemos no mesmo dia, serve de aclimatação. No dia seguinte leva-se o resto do material e subimos de vez para esse acampamento. Descansa-se e a mecânica repete-se para os dias seguintes. Será o mais próximo que se tem da experiência dos verdadeiros heróis, os alpinistas, a quem lhes presto homenagem, especialmente depois de ter experimentado tudo isto.

Como ia dizendo, fomos ao campo Canadá largar material, almoçámos o lanche, todos apertadinhos numa tenda mais pequena, e era tempo de descer antes que ficasse noite.

Começamos a descer e o meu joelho direito que já se vinha a queixar nos dias anteriores, apesar de ter andado a tomar anti-inflamatório, resolveu queixar-se com mais força. Desci ao acampamento base com dores, mas maravilhado por ter feito a descida com neve a cair, sem muita força, mas ainda assim é espetacular. Mal chego vou ao posto médico onde também havia um osteopata que me observa, e decide que não posso continuar, iria ser complicado tirar-me de um campo superior se deixasse de andar. Apesar de termos de fazer obrigatoriamente um seguro de resgate em montanha, nem sempre os helicópteros lá conseguem ir e iria comprometer a expedição porque obrigaria os guias ou alguém a trazer-me para baixo, deixando os outros abandonados. Não há lugar para egoísmos.

Estava traçado o final, mas ele tinha razão, e eu confesso que em consciência também decidiria o mesmo. Até porque tive de fazer os 27 km de volta até à entrada do parque provincial do Aconcágua, e fi-los cheio de dores no joelho e perna, porque estas coisas das dores, por vezes gostam de se estender à volta.

Cada um sente as dores de forma diferente, uns mais intensamente, outros menos, mas na minha opinião se o corpo se queixa, ainda que seja baixinho, há que escutar e atuar nem que seja parando.

Estes 27 km de descida dos 4300 metros do campo base até 2700 metros da entrada do parque, foram talvez a pior experiência que tive até ao momento. Uma das coisas que tinha lido e executei, foi tentar distrair o cérebro para não se focar na dor, que, como já entenderam, não era incapacitante.

Volto então a Mendoza, bastante cansado e dorido, apanho o voo para casa e vou ao médico.

Foi-me finalmente diagnosticada uma fratura de esforço com edema extenso na zona do fémur próxima do joelho. Nada de mais complicado, ao menos isso!

Lembro-me de numa das reuniões de dúvidas por zoom ter questionado o que poderia fazer mais para me preparar melhor, ao que responderam esse ser apenas um terço do problema, e se calhar fiz demais.

E essa foi a grande lição que trouxe do Aconcágua, estas aventuras, ou outras, têm três componentes em partes mais ou menos iguais: a preparação física, o corpo e a mente.

Concordo em absoluto.

O corpo pode reagir e dizer não. Nos Himalaias e no Kilimanjaro o João Garcia fazia questão de medir a saturação de oxigénio no sangue. No Aconcágua também era obrigatório. Abaixo de 70% não deixam seguir. A nossa mente pode começar também a dizer não. Há alturas em que se pensa, o que estou a fazer aqui. Conheci uma rapariga australiana no Aconcágua, que tinha decidido baixar do campo 2, porque o frio lhe estava a dar a volta à cabeça, segundo ela. Já a preparação física, não é preciso ser atleta olímpico, mas convém prepararmo-nos, mas não em excesso.

Mas a minha maior lição de toda esta aventura foi a humildade. Não preciso de teorizar, voltei com humildade no corpo e na mente.

Voltei feliz. Realizado também.

Tratei-me, e aqui estou a tentar convencer-vos a sair da vossa zona de conforto e permitirem-se sonhar, planear e executar. Não precisam de ser montanhas. Não precisam de ser atividades físicas.

Qualquer coisa difícil, quase inatingível, que primeiro nos faz sonhar, e começamos a analisar a possível viabilidade e como lá podemos chegar, e planeamos, e depois, finalmente realizamos que talvez lá consigamos chegar, com esforço claro, às vezes muito.

E esse será o vosso Evereste, e poderão ter tantos quantos quiserem.

Tal como eu!

Jorge Soares