Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"As três viagens fora e dentro ao Sri Lanka"
Nem de propósito. Mesmo muito a propósito. Tinha acabado de dizer sim à primeira viagem para fora em 2026 e de saber que a Transições lançara este desafio "Viajar para fora, viajar para dentro"...
Sinto que todas as viagens no espaço e território, sendo "para fora", encerram em si a oportunidade de serem uma viagem para dentro.
Viajar no espaço, para fora, ajuda-me a viajar para dentro de mim. Descobri que, quando viajo, quando atravesso espaço e tempo, geografias e fusos horários, há apenas uma invariante: eu própria. E é nesse mergulho no que somos, na procura do autoconhecimento, que a viagem enriquece tudo o que vivemos fora, paisagens diferentes e pessoas novas.
E também sinto que muitas vezes não somos nós que decidimos viajar, são as viagens que vêm até nós. Sinto, há muito, que não há acasos ou coincidências. Há antes sincronicidades!
Tudo isto aconteceu nas minhas três viagens ao Sri Lanka. A terra do Ceilão, uma das terras ditas da serenidade e da felicidade. Serendipity!
Não, não vou aqui discorrer sobre felicidade. É um tema difícil e complexo.
Vou antes aceitar o desafio da Transições e revisitar brevemente o que foram as minhas três viagens ao Sri Lanka e como elas foram viagens para fora e para dentro.
Em 2012, em janeiro, eu fui visitar o jardim botânico da Ajuda onde está sediada a AAJBA (Associação dos Amigos do Jardim Botânico da Ajuda), tendo em vista associar-me e saber dos cursos de jardinagem que ofereciam. Queria desenvolver a alma de jardineira, que é uma forma de viajar para dentro, para intervir na minha casa em Porto Covo, construída há um ano. A "sorte" pôs me à frente uma mulher muito especial, a Ana Lory, presidente à data da AAJBA. Tinha acabado de vir do Sri Lanka onde fora verificar os locais que, uma excursão que organizara iria percorrer em meados de fevereiro. A Ana brilhava no seu relato. Falou-me da beleza e serenidade do país e do facto de o visitar há muitos anos pois era cliente assídua do Barberyn Reef Resort, um dos mais reputados locais de medicina e tratamentos Ayurvédicos.
Esqueci a jardinagem e fiquei ali a ouvi-la longamente e a sentir-me atraída por essa viagem. Regressei a casa e disse ao meu Jony: "Olha eu vou viajar até ao Srilanka".
A viagem começara já dentro de mim.
Foi uma viagem dentro e fora. Pela primeira vez viajei sem família ou amigos, conheci um grupo de pessoas maravilhosas, muitas delas mais velhas do que eu, que já passara o meio século. A interação com elas disse-me muito sobre mim própria. Fiquei sozinha no meu quarto. Fartei-me de escrever, meditar, com o corpo a percorrer o espaço e a mente a usufruir da espiritualidade, serenidade e beleza duma terra especial. Regressei com a força e poder de ter escalado a montanha Sigiriya, a espiritualidade dos templos budistas, de Anuradhapura a Kandy e Dambulla, a presença portuguesa em Galle, os parques verdes, a proteção aos elefantes e a placidez e beleza dos lagos de nenúfares.
Iniciei a escrita da primeira secção das Crónicas do SriLanka.
A 13 de janeiro de 2020, a Ana veio a Lisboa e decidimos um encontro. No almoço, falou da sua grande exaustão e da imperiosa necessidade de voltar aos tratamentos Ayurvédicos no Sri Lanka, interrompidos há anos, por doença e morte recente do marido. Foi como se o seu cansaço e exaustão emocional, físico e intelectual se projetasse em mim. Regressei a casa e disse ao Jony que iria com a Ana de novo ao Sri Lanka, desta vez para viajar ainda mais dentro.
Voltei às Crónicas. A segunda parte das "Crónicas do Srilanka" descrevem os tratamentos Ayurvédicos e a intensidade interior resultante de, durante 3 semanas, apenas se cuidar do corpo para serenar e expandir a mente. A Ana dizia que aqueles 21 dias serviam para a manter saudável o resto do ano, física e emocionalmente. Regressei a 11 de Março, quando a pandemia foi declarada com imposição de confinamento. Durante meses não saí de casa e vivi a dor lancinante de perder o meu amado irmão para o COVID. Tinha comigo o diálogo interior, e a visão do nascer e pôr do sol nos passeios recentes, na praia na terra da serenidade. A minha viagem para dentro continuou em Lisboa, no espaço da minha casa. Confinada.
No dia de Natal de 2025, estava eu num almoço de família e a minha sobrinha Inês e eu procurámos, como sempre fazemos, um cantinho para conversar a sós. Gostamos muito uma da outra, e apesar de nos vermos poucas vezes, vamos diretas à conversa, onde o olhar e a cumplicidade, completam tudo aquilo que as palavras urgentes não conseguem exprimir. Tinha sido um ano difícil para ela, estava exausta e decidira ir numa viagem de meditação ao Sri Lanka, mas era a primeira vez que viajava fora da família e faltava-lhe alguém próximo com quem partilhar o quarto. Tudo o que ela me disse ali, com a voz, com o corpo, com o olhar, com o sentir, ecoou em mim, quase dolorosamente. Era para além da empatia, era viver as minhas dores ao viver as dela ali.
No ano de 2025 tinha estado em 9 países e 4 continentes, na Europa, Ásia, América e África. Além das muitas viagens dentro de Portugal, de norte a sul. Tenho duas malas e "nécessaires" sempre pré prontas: a de dois/ três dias e a de mais de uma semana. O meu marido diz que sou a pessoa que ele conhece que mais conjuga o verbo IR.
Ouvi-me dizer à minha Inês:
- Mas oh querida, eu vou contigo! Diz-me só as datas, onde me inscrevo e os teus voos. Eu limpo a agenda e serei a tua roommate.
O meu relato das duas viagens ao Sri Lanka tinha pouco mais de 100 páginas, distribuídas por duas secções. Voltei ao meu "escrito" e sorri ao ler as últimas frases escritas:
"Por isso, há que recomeçar a planear. Desejo voltar ao Serendip, a Taprobana de Camões. Reino dos sonhos do Ceilão. Sri Lanka. Voltarei ao Sri Lanka? Como diz uma amiga minha: "Porque não, sou maior, a minha mãe deixa e eu posso e quero." Quem sabe se não haverá ainda uma nova versão das Crónicas do Sri Lanka?
Que a saúde me assista. A saúde que é o bem maior."
Escrevi a terceira secção das Crónicas do Sri Lanka.
Durante 11 dias, fiz yoga, às 7 da manhã, torci um pé e a enfermeira Susana tratou-me com carinho, voltei a viajar no território, revisitando alguns locais e percorrendo outros, onde ainda não tinha estado. Voltei a subir os 200 metros do rochedo Sigiriya Lion Rock, num desafio a mim própria. De manhã e de tarde, meditávamos, partilhando sentires, nadando a mãe água, abraçando o pai protetor, trazendo ao de cima o que nos tolhia e impedia de fluir.
Eu levara três assuntos para resolver na minha mente e alma. O primeiro limpou-se ali. Era uma despedida de alma que precisava terminar. O segundo resolvi-o mal regressei a casa, com uma decisão simples que alinhava mente e alma. O terceiro, de resolução mais longa, está encaminhado. Será fechado em abril.
Isabelina Jorge
29.03.2026
