Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Fazenda e Mar

As viagens que me trouxeram de volta a Angola


Faço viagens para fora, sim, no caminhar pela natureza em qualquer lugar, mas essencialmente para dentro.
Quando caminho por entre arbustos, pelo meio de uma mata, num instante me conecto com o meu interior, desfruto de paz e sinto um remanescente profundo recordar.
Recordo três viagens que fiz que me transportaram à infância intensamente.

Uma das viagens que me marcou, foi a uma fazenda no interior de São Paulo no Brasil. Numa caminhada exploratória do sítio, vi-me no meio do mato, tal qual a roça onde nasci, no Quanza Norte.
Parei e sentei-me, em transe, a observar, sentir os cheiros, ouvir os ruídos e respirar todo aquele ar do matagal à minha volta.
Quase que me ajoelhei de gratidão por sentir um momento tão único, que saberia que não voltaria a ter outro igual. Recordei quem sou. Trouxe consciência para aquele ser que estava inconsciente. Percebi-me ligada à infância, ao sítio onde nasci. Realmente, só sozinhos nos conectamos connosco mesmos.
Seja em que lugar for, e como estiver, compreendi que terei sempre a minha infância, como um tesouro de recordações.

Outra das viagens e momentos inesquecíveis, foi a 1ª vez que fui a Cabo Verde e que entrei no mar, na água morna que já não desfrutava há alguns anos. Sempre gostei muito de praia. Fiz uma regressão autêntica, voltei aos meus 8 anos. Saltei dentro de água, desfrutei as ondas, como se estivesse numa das praias da baía de Luanda, onde os meus pais me levavam em férias. Foi uma sensação tão gostosa e incrível, de alegria e gratidão ao universo por me ter permitido recordar e reviver momentos tão maravilhosos que tinha desfrutado nas praias de Luanda.

A terceira viagem foi à Índia, numa estadia em Goa. Da mesma forma, numas das praias, mais uma vez, as águas quentes e as ondas do mar, fizeram renascer a minha criança. Saltei, mergulhei, diverti-me com as minhas amigas, com tanta alegria e entusiasmo como se estivesse em Angola. Não queria, de modo nenhum, que aquele momento terminasse. A criança estava viva.
A natureza, os cheiros, a lama na fazenda, o mar e as ondas quentes, criaram em mim um eco de memórias felizes e recordações preciosas.
Foram viagens para dentro, que estimularam um sentimento de presença e conexão, como só havia sentido em criança. 

Já não precisava de viajar a Angola. 

Inês Melo