Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

As mulheres de
Myanmar (Birmânia)
Heroínas que a ditadura patriarcal tende em
tornar invisíveis, ao abrigo dos dogmas religiosos.
Em 2019, 8 anos depois da junta militar ter sido dissolvida, e um governo democrático ter sido instaurado, com a participação de Aung San Suu Ky, fui visitar a antiga colónia inglesa birmã, durante 3 semanas.
Ao pisar o solo do Myanmar, compreendi imediatamente que seria uma viajem especial.
O Myanmar tem milhares de pagodes, templos, brancos como a cal, dourados, cheios de torres e decorações extravagantes.
Os budas inundam os jardins, as terras, as florestas, as casas, de pé, deitados, gigantes, brancos, dourados.
Depressa me apercebi que a religião estava omnipresente na vida quotidiana dos birmaneses.
Cerca de 90% da população é budista, o que não os impede de acreditar nos nat (os espíritos), que convivem bem com a religião oficial.
A população dedica entre 10 e 30 % dos seus baixos rendimentos à manutenção dos pagodes e dos monges. Os mais pobres dão mais, proporcionalmente aos seus rendimentos. A quantidade de notas, colocadas todos os dias, entre os braços dos budas, nas dezenas de milhares de templos, por todo o país, dava uma ideia da dimensão financeira envolvida.
Mas o choque não veio da importância da religião que ritma a vida das pessoas que cruzávamos.
O choque veio da visão que me ficou do lugar das mulheres na sociedade birmã.
Nas suas ocupações diárias, as mulheres, trabalhando nas obras, varrendo os templos com os filhotes nas costas, carregando as nossas malas à cabeça, apresentavam um sorriso discreto, uma atitude reservada e um distanciamento que desconhecia nas mulheres dos outros países asiáticos que já tinha visitado.
Tanto insisti com o guia, que acabei por perceber a razão da tristeza nos olhos das birmanesas.
A religião é a chave das desigualdades e do lugar que ela concede às mulheres.
O budismo Tharavada, que significa "A Doutrina dos Anciãos", continua a ser a religião dominante, praticada por mais de 85% da população, especialmente pelos Bama, Shan e Môn.
Na religião budista tharavada, a condição feminina impediu as mulheres de aceder à Iluminação.
As mulheres, estando desprovidas de phón, a totalidade das grandes virtudes budistas que englobam a honestidade, a retidão, a renúncia ao desejo, não possuem esse poder espiritual, pois estão inclinadas à desonestidade, à duplicidade e à cobiça.
As lutas travadas por algumas mulheres não conseguiram restabelecer a igualdade.
Se os valores ensinados por Buda são o amor, a compaixão, a não-violência e a tolerância, algumas regras instituídas pelo budismo continuam a restringir a liberdade das mulheres na sua prática religiosa mas também na maioria dos aspetos da vida quotidiana.
Tanto na esfera privada como pública, as desigualdades entre homens e mulheres fazem-se sentir, de maneira persistente.
E foi na célebre Rocha de Ouro, onde passamos uma noite, que o afastamento das mulheres se tornou para mim mais revoltante.
Entre os tesouros espirituais da Birmânia, poucos lugares fascinam tanto como o pagode da Rocha de Ouro, conhecida localmente pelo nome de Pagoda Kyaiktiyo.
Empoleirada na encosta de uma montanha, este pagode atrai todos os anos milhares de peregrinos budistas e viajantes curiosos, ansiosos por admirar um espetáculo natural e religioso único no mundo: uma enorme rocha coberta de folhas de ouro, desafiando a gravidade à beira de um precipício.
Segundo a lenda, mantém o equilíbrio graças ao posicionamento muito preciso de um cabelo do buda.
Para chegar ao pagode da Rocha Dourada, famílias inteiras, monges, visitantes, começam a viagem a partir de Yangon.
Após cerca de 5 horas de carro, chegamos a Kinpun, chamado o "acampamento base" do local. A partir daí, uma subida espetacular, em camião adaptado, conduz os peregrinos e turistas até perto do cume.
Os mais corajosos podem então escolher percorrer a última etapa a pé, uma caminhada de cerca de 4 quilómetros que adiciona uma dimensão espiritual e contemplativa à experiência.
O meu grupo optou por experimentar a carrinha descapotável e subir aos solavancos e gargalhadas. Ao aproximar-me da rocha, reparei que grupos de homens colavam folhas de ouro umas por cima das outras, dando ao rochedo o seu nome.
Nenhuma mulher se aproximava da rocha….proibição total de dourar a rocha mítica.
E a razão deixou-me sem voz : as mulheres sendo impuras, não se podem aproximar da Rocha. Vim também a saber que não se podem aproximar dos budas.
São elas que se levantam as 5 h da manhã para preparar os cestos de presentes, de comida, de flores para a decoração e o bem estar dos budas todos da Birmãnia….mas não se podem aproximar.
A superioridade dos homens é justificada por a tal qualidade que faltaria às mulheres : o phón, geralmente traduzido como «glória»: essa força espiritual particular que os coloca de facto acima das mulheres na escala das reencarnações, e não só.
A junta militar, em fevereiro de 2021, derrubou a frágil democracia, e o budismo tharavada defende hoje os valores ultranacionalistas duma religião onde as minorias e as mulheres lutam pela vida ou a igualdade.
Graça
Raposo
Fevereiro
2026
