Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Antica Tettoia dell'Orologio di Porta Palazzo 

Rio Pó

Não sei se vos acontecia o mesmo, mas durante uma fase da vida era recorrente lembrar-me de lugares que, nas diversas disciplinas dos estudos liceais, tinha ocasião de estudar e cuja minha imaginação se encarregava de mitificar.

Quando uma ideia congénere me assaltava o espírito era certo e sabido que tinha de visitar fisicamente essa a região. Não sei a razão mas lembro-me ainda que tinha sido numa aula de geografia, o professor Vítor Bravo, uma joia de pessoa, tinha falado com entusiasmo do rio Pó. Teria sido pelo seu estuário, um delta formado por cinco rios? Pela sua biodiversidade? Por ser o maior rio italiano com os seus seiscentos e tal kms? A sua rede de canais (navigli) que o liga a Milão e por tudo isso foi distinguido pela UNESCO? Isso agora não interessa nada.

Interessa que preparei a viagem e elegi como ponto de chegada ao início da visita a cidade de Turim. Porquê Turim? Além da ligação privilegiada com o rio Pó não era (é) a cidade do mítico Alfa Romeo, então já da família do Signore Agnelly, dona da Fiat?

A minha entrada em Turim, no meu Datsun 1200 (um dos representantes da invasão industrial da Europa pelos japoneses) foi memorável. Parei o carro, perto da Cattedrale di San Giovanni Battista e do Palazzo Reale di Torino, e saí com, à boa maneira turística de então (hoje o telemóvel tira-nos este prazer), abri o mapa previamente adquirido. Imediatamente se abeira de mim uma senhora local oferecendo ajuda (esta cena repetir-se-ia várias vezes, em diferentes locais de Torino).

A entrada no mercado de frescos, Antica Tettoia dell'Orologio di Porta Palazzo, foi análogo à entrada numa ópera burlesca em que, em vez de ficarmos na plateia, nos dirigíssemos para o palco e circulássemos entre os atores, nos seus trajes de rigor campesino e múltiplo colorido. A música vinha das suas vozes a cappella com uma sonoridade deliciosa. "Signore, signore porti a casa mela gala", "Cinque chili, cinque chili di pomodori …"

Passear em Turim é em si como num sonho em que são as paisagens que vêm ao nosso encontro. São absolutamente indescritíveis as imagens, os sons, as sensações, os perfumes, por fim o Rio.

Fiel ao princípio de "nunca voltes ao lugar onde foste feliz" nunca mais lá voltei. Mas em espírito mil vezes o revisitei.

Fernando Guedes Pinto
março 2026