Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Viagem Inesperada

Há viagens inesperadas
Decisões repentinas
Assim fomos em direção a Sevilha em plena Páscoa
Irrompemos num espaço
Em que se misturavam procissão e alegria
Lágrimas em reza
E cantos em folia noite fora
Não se conseguia distinguir o religioso do pagão
E para tudo olhava com espanto
E engolia mil mundos contraditórios

Da falta onde pernoitar
Seguimos viagem rumo ao sul
Numa estrada diferente da atual
Em que se atravessava a montanha
Em curvas e contracurvas

Os pirilampos e as estrelas eram a única iluminação
Até que num determinado momento
O sol veio devagar inundar a estrada
E nunca um nascer do sol foi tão bonito
E nunca o nascer do sol voltou a ser tão bonito
Rebentou entre as montanhas

E ganhou o meu corpo
A minha infância
Aquela viagem na curta distância entre Sevilha e Málaga
Aquela viagem em família
De madrugada
Apenas eu e o meu pai
Acordados
Rodeados de maravilhas
Eu criança quase adolescente
Entre nós conversas mil
Sobre receios e anseios
Maravilha e luz

A luminosidade do sol que suavemente
Abria o céu de par em par
Abria um mundo para mim
Na magia de ter o som da voz do meu pai
A conduzir-me entre os sonhos
Que tomavam forma
A manhã ganhou uma força inigualável
O fresco da manhã
Os cheiros que despontam com o dia
Invadiram-me

Tomaram-me de assalto
E de repente fiquei mais perto da plenitude
E para sempre ficou esta lembrança
Que entre mil maravilhas
Vincou a suavidade do olhar do meu pai
E da sua voz
Que sempre foi porto seguro
Onde eu adormecia
Nas noites de medos infantis

E uma viagem inesperada
Acabou por ser o mais perfeito encontro

E entre memórias transformou-se
Numa visita ao estranho mundo do silêncio
De todos os lugares de adoração
Que nos constroem para vida
No assombro da descoberta
Que persistimos em continuar
Outras viagens
Outros caminhos

Eduarda Carnot