Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Índia …uma viagem que me encheu o coração
Viajar é libertarmo-nos, é encontrarmo-nos, é percebermos como no meio do silêncio do deserto, no cume de uma duna, ou na caótica Bombaim é possível encontrar aquele bocadinho de nós que não sabíamos existir ou que julgávamos perdido.
Um momento´, que ditou uma viragem na minha vida, deu-me asas para voar e realizar o sonho do encontro de bocados de mundo que há muito povoavam a minha imaginação, os meus sonhos.
Difícil escolher a viagem de entre as viagens do meu coração, escolhi a Índia que de imediato o conquistou, bem como todo aquele continente.
Após 12h de viagem, num grupo de 11, parti à descoberta do Rajastão, pela mão de um guia, que não sendo alto nem munido de bandeirinha, conseguiu manter a coesão no meio do caos.
E assim, todos munidos da sua mochila, saímos do aeroporto e mergulhámos em Deli. O impacto foi imediato, nada lhe é comparável e daí a sua beleza única.
De rickshaw e a pé calcorreámos ruas até ao nosso hotel, Shelton, numa das muitas ruas onde a vida borbulha e nos salta à frente, onde ao virar da esquina se esbarra com alguém que também não nos viu, mas, que com uma vénia e um sorriso se desvia. São simpáticos, são prestáveis querem-noslá, gostam de viver connosco e para nós.
O hotel, com uma cama para cada, mas wc comum, tinha para pequeno-almoço, no café do r/c, pão acabadinho de fazer, escaldava as mãos, uma verdadeira delícia.
Passeámos por aquelas ruas onde tudo se vê, tudo se compra, tudo se troca, onde todas as religiões coabitam em paz, porque é natural, e de há muito assim o é. Não se julga ninguém, deixa-se cada um ser e amar o que o faz feliz.
Viajar por Deli, como por toda a Índia, é perdermo-nos de nós mesmos, é deixarmos de nos concentrar no limpo, no arrumadinho, ali a vida é prática, dão-seas mãos, dão-se sorrisos.
A gastronomia, mesmo para mim, pouco dada a experiências gastronómicas, oferece o pão delicioso a cada esquina, colá-lo às paredes da grande panela parece fácil, mas, mais certo uma queimadura que um pão cozido e o Nihari (ensopado de borrego) é obrigatório.
Deixamos Deli, a viagem é longa e os dias poucos para tanta experiência. De comboio, noturno, para podermos, tal como a generalidade dos indianos, aproveitar os dias, rumamos a Varanasi.
Chegados à estação não se vislumbrava o fim ou princípio do comboio, mas o guia sabia onde encontrar a lista de passageiros e…constávamos, podíamos entrar.
Remonta ao séc. III a.c. a capital espiritual. Varanasi terra de morte, mas também de renascimento, atrai peregrinos hindus que se banham nas águas sagradas do Ganges. Aqui vêm morrer ou trazer os seus entes queridos para que o corpo possa ser incinerado e as cinzas atiradas ao Ganges. Acreditam que morrer em Varanasi trará a salvação, as piras ardem 24h / dia.
Grupos de homens descalços fazem fila para cortar o cabelo, obrigatório para quem acompanha um ente querido.
Deixamos o local sagrado da morte, não fotografamos, embora demasiado exposto é um momento privado de reencontros e despedidas, e vamos à descoberta da cidade velha. Nesta cidade ½ milhão de pessoas são espremidas em 1km2 de vielas sinuosas, por vezes interrompidas por uma vaca, que ocupa toda a rua e que, porque sagrada e não podendo ser molestada, nos obriga a procurar via alternativa.
Em Varanasi, como na generalidade das cidades, também se venera o nascer e pôr do sol, momentos de união, de contemplação, junto ao Ganges, naturalmente.
A vida corre ao longo deste rio, aqui se morre, se negoceia, se canta, se lava roupa, se tomam aulas de natação. O Ganges é vida, é a alma de um povo.
Sadhus, homens santos são presenças silenciosas, estão lá, são conselheiros espirituais, a sua presença transmite calma, com eles é mesmo possível ouvir o silêncio.
Deixamos Varanasi e em mais uma viagem de comboio rumamos a Agra pois a visita ao Taj Mahal é obrigatória em qualquer roteiro. Memorial do imperador para sua amada, um sonho em imaculado mármore branco, nas margens do rio sagrado que se impõe pela sua grandiosidade simples e simultaneamente faustosa. São inclinadas as colunas que o ladeiam? Sim, para que água e poeiras não se acumulem poluindo o mármore imaculado. São muitos os visitantes, a maioria indianos vindos de todos os cantos, para admirar esta obra de arquitetura. Famílias, grandes em geral, aproximam-se, as crianças gostam de tirar fotografias connosco, um complemento desta visita.
Não é possível falar de todas aquelas belas cidades, mas Jaipur, capital do Rajastão, a cidade rosa impõe-se como obrigatória no nosso roteiro. Ela evoca a família real que em 1727 fundou uma cidade conhecida pela sua organização, ruas largas dispostas com regularidade, destoando da generalidade das cidades da época e reconhecida como património mundial da Unesco desde 2019. Em 1876 o marajá, em homenagem ao príncipe de Gales, mandou que todos os edifícios fossem pintados de rosa, a cor da hospitalidade. Uma lei municipal impõe que assim seja até aos nossos dias mantendo a sua identidade única.
Em região semiárida e com calor intenso, a arquitetura foi pensada de modo a permitir isolamento, com paredes espessas, ventilação com amplos jardins interiores, janelas estreitas lindamente ornamentadas e orientadas de modo a permitir o controlo da luz, mas também a privacidade das mulheres que não podendo sair de casa, tinham a possibilidade de apreciar a rua sem serem vistas. São verdadeiras colmeias não só na arquitetura, mas porque nelas se desenrola uma organização social, se encerram vidas faustosas, mas também simples, encarnadas em dezenas de obreiras silenciosas, atentas, servis, mas também amigas e cúmplices.
À noite, uma surpresa, tínhamos bilhete para o cinema Bollywood, claro. Não há idade mínima, todos são bem-vindos, ninguém fica em casa porque o bebé não pode entrar. Aqui veem-se os galãs do momento, aguarda-se a entrada em tela, batem se palmas, canta-se, comenta-se. Aqui vale tudo, ir ao cinema é uma festa é um momento de partilha, um momento em que se foge à realidade, muitas vezes dura e se imagina fazer parte da tela.
O tempo é curto para percorrer estas ruas, o nosso desejo é ficar, mas…não há como.
Rumamos a Pushkar, paraíso situado no limite do deserto de Thar e descrito como um oásis de calma, famosa pela feira de camelos e lago sagrado. Limita a circulação de veículos motorizados e embora já habituados soube bem ouvir este silêncio, embora de início com a sensação de algo faltando. Viver o pôr do sol no lago sagrado foi, para mim, um dos pontos altos desta viagem, paz, pura paz.
Visitamos ainda Jodhpur, a cidade azul onde é impossível resistir à melhor omelete do mundo, tal como classificada em crónica de viagem de jornal nova-iorquino e exibida com orgulho pelo seu proprietário. Num recanto de umas das múltiplas e caóticas ruelas lá estavam eles empilhados nas suas caixas. Temperatura, passava dos 40º os utensílios já tinham visto muuuuuitas omeletes. Verdade, todos comemos, soube muito bem e ninguém adoeceu… aquela terra faz milagres.
E de Jodhpur tomamos o autocarro para Udaipur, uma simpática e anafada vaca vigiava chegadas e partida. A que horas parte o autocarro, perguntei "essa pergunta não se faz aqui" respondeu o guia "quando estiver cheio parte, quando chega não é importante". Durante a viagem e num instante o número de passageiros duplica, há sempre espaço para mais um. E assim, bem sentados, nós tínhamos lugar reservado, com crianças sentadas nas nossas mochilas, ao colo, nos nossos pés, alguns bichinhos que aproveitaram a boleia, percorremos povoações pelo interior do Rajastão. Não há silêncio, as crianças falam, gesticulam, fazem-se entender, algumas nos seus 12-14 anos expressam-se em perfeito inglês. Os pais explicam-nos que para eles a educação dos filhos é seu objetivo de vida, vale todo o sacrifício dos pais e os filhos retribuem trabalhando. Sabem que só podem ser melhores, ter melhores condições de vida se estudarem.
E depois de Udaipur pegamos mais uma vez um comboio e mergulhamos na caótica Mumbai, antiga Bombaim. 30 000 pessoas / Km2 onde os termómetros marcavam 45º e uma humidade de 95%. Tomar banho era quase um desperdício, a muita água que bebíamos evaporava-se evitando o risco de ter de procurar local apropriado para nos livrarmos da que já não era necessária. A pé, de transportes públicos, deambulamos por aquele enorme aglomerado de gente tudo no maior civismo, sem atropelos. Visitamos a Victoria Station, O Mahalaxmi (um dos maiores lavadouros públicos da Índia dado a conhecer ao mundo no fantástico filme Slumdog Millionaire) e relaxamos ao pôr do sol numa praia a 500m daquele, os contrastes surpreendem-nos a cada esquina.
Não é possível descrever em algumas frases um país quase do tamanho de um continente.
A Índia sente-se, cheira-se, é preciso viver para a sentir em toda a sua grandeza e por isso aqui deixo convite para o fazerem, mas, assim a verdadeira Índia não a dos hotéis, comboios e autocarros climatizados, essa não é a verdadeira Índia.

Dulce Barros
Março 2026
