Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"120 Quilómetros até ao Milagre"

A Promessa

Chamo-me Claudia Geni.
Carrego no meu nome o nome das minhas duas avós, mas foi com a avó Geni que aprendi uma coisa que muitos considerariam improvável: é possível negociar com os santos.
Ela dizia-me com a naturalidade de quem fala de alguém da família:
— Os santos ouvem-nos sempre. São nossos intercessores. Levam os nossos pedidos até Jesus e até Deus.
E acrescentava ainda:
— E Nossa Senhora… Nossa Senhora é a mãe de todos. Com o seu manto azul protege-nos sempre.
Cresci com essa certeza tranquila de que o céu não é um lugar distante. O céu escuta.
Quando decidi fazer o Caminho Português Espiritual até Santiago de Compostela, não era apenas uma viagem. Era uma conversa.
Eu estava a atravessar um momento difícil da vida. Um tempo de separação, de reorganização profunda, em que precisava de encontrar um novo lugar para mim e para os meus filhos. Precisava de uma casa. Um lugar seguro onde pudéssemos recomeçar.
Por isso fiz uma promessa silenciosa. Caminharia até Santiago. Cento e vinte quilómetros. Seis dias de estrada. E quando chegasse, pediria ajuda. Porque, como dizia a minha avó Geni, os santos ouvem.
E Santiago tem um papel especial no coração dos peregrinos: é o guardião dos caminhos, o companheiro dos que caminham com fé, dúvida e esperança.

Assim comecei o meu caminho.

Dia 1 — Poder

Saí de Tui com o céu parcialmente nublado, como se o mundo ainda estivesse a decidir se se abria ou se se recolhia.
O caminho até Pontevedra estendia-se relativamente plano, quase generoso, como um primeiro gesto de acolhimento. Caminhar 26 quilómetros parecia, naquele início, apenas uma promessa.
O corpo encontrou lentamente o ritmo da respiração. Os passos alinharam-se com o bater do coração e, pouco a pouco, o ruído do mundo foi ficando para trás. Cada passo era uma pequena afirmação silenciosa. Havia qualquer coisa de profundamente simples naquele primeiro dia: caminhar, respirar, avançar.
E, no entanto, dentro de mim crescia uma palavra clara, firme: Poder.
Não o poder sobre os outros, mas o poder de continuar. O poder de escolher. O poder de confiar no caminho.

Moral do dia:  Às vezes o verdadeiro poder é apenas continuar a caminhar.

Dia 2 — Superação

O caminho entre Pontevedra e Armenteira não foi gentil. A serra levantou-se diante de mim como uma pergunta. A subida exigia pulmões, coragem e teimosia. A respiração tornou-se curta, pesada. Houve um momento em que pensei, com absoluta sinceridade: "Vou morrer aqui".
Mas o corpo, quando escutado, encontra caminhos que a mente ainda não conhece. Parei. Respirei. Esperei. E lentamente o ar voltou a entrar nos pulmões. A cabeça começou a compreender o que o coração já sabia: os limites também se atravessam.
Nesse dia fiz uma promessa silenciosa. Prometi que, dali em diante, carregaria apenas o que é meu. Prometi que seria eu a decidir o meu caminho. E prometi algo ainda mais profundo: "Nunca mais deixarei de dançar".

Moral do dia: Quando atravessamos os nossos limites, descobrimos quem realmente somos.

Dia 3 — Limite

A descida da Serra da Armenteira até Vilanova de Arousa começou debaixo de uma chuva intensa. A terra estava viva. Lesmas grandes lesmas atravessavam o caminho como pequenas criaturas antigas. O ar tinha um cheiro húmido e profundo.
Era como caminhar dentro de um território antigo, quase xamânico. Ali encontrei também a sombra — não como ameaça, mas como companhia.
Pelo caminho ajudei uma amiga que estava em dificuldade. E nesse gesto percebi que caminhar também é cuidar de quem caminha ao nosso lado.
Mais tarde encontrei uma pequena represa. A água era cristalina. Tirei a roupa e mergulhei nua. Foi um banho silencioso, um batismo de renascimento. Mas o caminho ainda tinha outra lição para me oferecer.
Depois do almoço, o meu joelho recusou-se a continuar. Cada passo tornou-se impossível. Tive de chamar um táxi e ir para o hotel. Chorei muito. Parecia que tinha desistido.
Mas, no fundo, aquilo não era desistência. Era respeitar o limite do corpo. Na pousada encontrei uma mulher chinesa que precisava de ajuda para falar com a recepcionista espanhola. Traduzi o que pude.
Em agradecimento, ela pediu-me que me sentasse e começou a manipular o meu joelho com mãos firmes e silenciosas. Depois tomei os anti-inflamatórios e adormeci profundamente.
Quando acordei, na manhã seguinte, o joelho não doía. Levantei-me devagar, com cuidado. Caminhei. Nada. A dor tinha desaparecido. E, curiosamente, nunca mais voltou.

Moral do dia: Respeitar os limites não nos enfraquece. Às vezes é exatamente isso que permite que o milagre aconteça.

Dia 4 — Abundância

O dia começou no rio. Partimos ao nascer do sol num pequeno barco pelo Rio Ulla, atravessando a única Via Sacra marítimo-fluvial do mundo, marcada por dezassete cruzeiros de pedra.
Quando entrámos na calha do rio, um nevoeiro espesso cobriu tudo. As pessoas recolheram-se para dentro do barco. Lá dentro serviam bolos e uma bebida estranha de leite com chá. Eu fiquei no convés. Esperei.
E pouco a pouco o nevoeiro começou a abrir pequenas janelas. Vi peixes a saltar, margens cheias de vegetação, aves pousadas em silêncio. Vi também um inesperado barco viking.
E naquele instante senti novamente o caminho dentro de mim. Abundância.
Depois desembarcamos em Pontecesures e caminhámos até Padrón. Cada passo voltava a encher-me de força.

Moral do dia: Quem tem paciência para esperar, vê aparecer coisas que os outros perderam.

Dia 5 — Conquista

De Padrón até Santiago, o caminho foi sereno. A luz era dourada e suave. Ao longo da estrada encontrava rostos conhecidos — peregrinos que tinham caminhado comigo ao longo da semana.
Havia sorrisos de vitória. Quando chegámos à Praça do Obradoiro, estava a acontecer um casamento espanhol. Mulheres elegantemente vestidas cantavam atrás da noiva. Homens igualmente bem vestidos acompanhavam o noivo.
Parecia uma celebração de novos ciclos. Dentro da Catedral de Santiago, aproximei-me do apóstolo e abracei-o. Fechei os olhos e fiz um pedido simples: uma casa nova.
Nesse momento surgiu dentro da minha mente uma imagem muito clara: uma cor laranja intensa. Não sabia porquê. Guardei essa imagem comigo.

Moral do dia: Quando chegamos ao destino, percebemos que a verdadeira conquista foi acreditar.

Dia 6 — Gratidão

No último dia acordámos leves. Durante o pequeno-almoço, a minha colega ajudou-me a terminar de retirar quatro unhas que tinham sucumbido à rigidez das botas.
E assim fui buscar a Compostela, o diploma de peregrina. De chinelos.
Segui depois viagem para o Porto, para dançar a última vivência da Maratona de Música.
Quando entrei na sala, os meus colegas levantaram-se e aplaudiram.
Foi então que compreendi algo muito simples: o caminho não termina em Santiago. O caminho continua quando voltamos a dançar a vida.

Moral do dia: O verdadeiro destino de qualquer peregrinação é voltar à vida com o coração mais aberto.

O Milagre

Quando abracei Santiago dentro da catedral, fiz um pedido simples: uma casa.
Um lugar seguro para mim e para os meus filhos. Naquele momento surgiu dentro da minha mente uma cor laranja intensa.
Dois meses depois, o milagre aconteceu. Encontrei a casa certa. Uma casa boa. Uma casa que eu posso pagar.
Quando entrei pela primeira vez, parei no hall de entrada. E então vi. As paredes eram laranja. A mesma cor que tinha surgido dentro da catedral de Santiago.
Sorri. Talvez a minha avó Geni tivesse mesmo razão. Talvez seja possível negociar com os santos.
Caminhei 120 quilómetros na fé de um milagre. E o milagre chegou.
Hoje sei que o Caminho de Santiago não termina na catedral. Ele continua dentro de nós.
Continua nas decisões que tomamos, nas promessas que cumprimos, nas casas que construímos e nas vidas que recomeçam. Porque, quando caminhamos com fé, com coragem e com o coração aberto, há sempre um momento em que percebemos: Não fomos apenas nós que caminhamos. O caminho também caminhou connosco.

Claudia Girelli