Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

O TEMPO E O SER (PARIS-PORTO)
Ao fim de três dias em Paris, resolvi percorrer novamente o Louvre e ombrear com gentes de todas as idades e proveniências. Estava cansada. Só se conhece e avalia uma cultura quando se anda a pé; tinha calcorreado perto de 50 km. Sim, estava a valer a pena.
Pensei em sentar-me numa esplanada por perto. Abanei a cabeça e chamei um Uber; estava decidida: ia revisitar o Musée de l'Homme. Ainda tinha três horas antes de apanhar o voo para o Porto.
— Nous sommes arrivés ! Réveillez-vous, Madame !
Sim, tinha adormecido profundamente e viajei oniricamente pelo seguinte pensamento:
Às vezes, penso que seria uma delícia se fôssemos todos obrigados a mudar drasticamente esta forma de viver em ritmo acelerado. Vivemos a utopia de sermos mais felizes por estarmos mais informados, rodeados de um manancial de objetos que potencialmente nos facilitam a vida: telemóveis, internet, plataformas de streaming, aplicações maravilhosas que nos fazem dormir, meditar ou consultar as calorias gastas.
E se, de repente, por consequência da guerra, tudo mudasse? Que a apologia fosse a de trocar a rapidez pela ponderação. Zás: aconteceu. Voltássemos aos telefones fixos, à internet disponível apenas em certas horas do dia, aos canais televisivos limitados. As pessoas começariam — ou voltariam — a pensar, em vez de acumularem informação supérflua; a ler e a comentar livros com os outros. Retomaríamos o convívio nos cafés, reunir-nos-íamos à volta de mesas para discutir ideias e conhecimentos. Teríamos tempo para sentir o cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas matinais, o odor das plantas e flores. Tempo para olhar as árvores, observar as suas belas ramificações e os braços nodosos de madeira com pegas ou melros a saltitar.
Precisamos de travar as guerras feitas com drones e outras maquinarias bélicas, altamente sofisticadas, que cobardemente matam e dilaceram corpos e mentes. Precisamos de acabar com esta ficção científica de base distópica. É urgente não sermos manipulados por influenciadores e pelos mass media corrompidos pelo sensacionalismo barato e oco. É urgente parar a mediocridade do homem-rebanho, que não pensa, não sente e age em nome do nada.
Deixaríamos de ser escravos dos telemóveis. Combinaríamos idas ao cinema, andaríamos a pé e, talvez, voltássemos a ser pessoas sociáveis e solidárias. Equacionaríamos o papel da humanidade liberta das amarras que nos embrutecem: a revolução do ser em detrimento do ter. Deixaríamos de consumir desenfreadamente roupa e outras banalidades que nada acrescentam ao crescimento do ser humano como ser crítico, ético e solidário. O "rápido" transformar-se-ia no tempo certo e necessário para absorver o conhecimento do real. Redimensionar o tempo é urgente. A reflexão possibilita valores éticos e estéticos e, sem esses valores, somos amorfos — parte de uma máquina poderosa que nos suga a individualidade.
Branca Lago
