Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Regresso ao Lubango - A minha terra

Há lugares que nunca nos deixam partir por completo. Vão connosco para todo o lado.

O Lubango é esse lugar para mim. Durante 28 anos, a sua imagem permaneceu intacta, guardada como se guarda um tesouro precioso.

Até que, em 2012, regressei.

Levei comigo os meus filhos, como sempre tinha sonhado. Queria que vissem a terra onde dei os primeiros passos, que compreendessem que antes de ser mãe, antes de ser quem eles conhecem, fui criança naquelas ruas. Queria que percebessem melhor as histórias que tantas vezes lhes contei.

Vê-los ali, sentindo-se bem numa terra simultaneamente estranha e familiar, foi como fechar um círculo que eu nem sabia que tinha ficado aberto.

Mas o verdadeiro milagre foi outro: partilhar aquele regresso com a minha mãe, as minhas irmãs, os maridos, todos os filhos. Nunca tinha imaginado que voltaríamos todos juntos. Essa dimensão coletiva deu à viagem um valor impossível de medir. Não era apenas eu a revisitar o passado; éramos nós, família inteira, a testemunhar as nossas origens.

A cidade que encontrei era e não era a mesma.

Alguns edifícios emblemáticos estavam recuperados; muitos outros revelavam o desgaste, o abandono, o peso dos anos. As belezas naturais, essas, mantinham-se intactas: a Senhora do Monte erguia-se serena, a Tundavala abria-se numa vertigem de silêncio, e na Serra da Leba a estrada desenhava as curvas que sempre me maravilharam.

Ali, diante dessa grandeza, reconheci a Angola que amo, eterna, poderosa, indomável.

Mas foi o que vi nas pessoas que mais me tocou.

A maioria vivia mal. Não o mal de quem tem pouco, mas o mal de quem não tem o suficiente para viver com dignidade. Uma economia que não funciona, empregos mal pagos que empurram para expedientes de sobrevivência, crianças com fome no olhar.

Foi então que compreendi, com uma clareza tranquilizadora, que a decisão de 1984, dolorosa, difícil, tinha sido certa.

Mesmo com todo o amor que sinto por aquela terra.

Mesmo com a saudade que carrego.

Mesmo sabendo que uma parte de mim ficou para sempre naquele lugar.

Essa compreensão não trouxe alívio; trouxe paz. A aceitação de que, por vezes, amar um lugar é ter a coragem de o deixar. Que, às vezes, a fidelidade maior é para com as pessoas que amamos e não com a terra que nos viu nascer.

Ali já não podia viver o meu dia-a-dia. A minha vida seguira outro curso, construído noutras circunstâncias, com outras possibilidades.

E está tudo bem.

Regressei com o que sempre foi meu, a memória, o afeto, o sentido de pertença e deixei no Lubango a certeza tranquila de que a minha escolha tinha sido acertada.

Ana Paula Melo
Fevereiro 2025