Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro
Da Memória ao Presente: O Dia em que voltei a Angola
No início do ano de 2023 o meu filho planeava ir a Luanda e, como sempre fez, desafiou-nos para o acompanhar e revisitarmos a terra que nos viu crescer.
Confesso que, durante décadas, essa possibilidade me pareceu quase impossível. A carga emocional de quem há 48 anos teve de deixar para trás o país que amava sempre me impediu de regressar. Como tantos outros portugueses da época, saímos de Angola com a vida inteira arrumada na memória e no coração.
Mas desta vez aceitei o desafio.
Nasci em Benguela e cresci em Luanda. Voltar quase cinco décadas depois era entrar num território feito de lembranças, emoções e muitas perguntas. A ansiedade era grande para mim, mas talvez ainda mais para o meu filho, que queria compreender melhor de onde vinha a história da nossa família.
Entre os intervalos das reuniões dele, fomos percorrendo lugares que fizeram parte da minha vida. Foi estranho e bonito, ao mesmo tempo, explicar-lhe ali mesmo, no local, episódios da minha juventude. Passámos pelos Maristas de Luanda, onde estudei em menino e onde o espírito Champagnat continua vivo. Fomos ao antigo Liceu Salvador Correia, onde ainda existe o bar do famoso "Videira". Visitámos a Faculdade de Economia, situada na marginal, com aquela vista aberta para o mar que sempre marcou a cidade.
Passámos também pelas Finanças na Mutamba, o meu primeiro local de trabalho, e percorremos os bairros onde vivi: o mítico Bairro Popular onde ainda funciona o Cine São João, a Vila Clotilde e o Bairro do Cassenda (ex Américo Tomaz). Cada esquina trazia uma memória, cada rua parecia devolver pedaços de uma vida que tinha ficado suspensa no tempo.
Foi estranho e ao mesmo tempo incrivelmente bonito. Tão emocionante que quase não consegui conter o que sentia. As lágrimas começaram a correr sem que eu pudesse evitar, primeiro silenciosas, depois em pequenas convulsões de choro incontrolável. O meu pulso acelerou, como se o coração quisesse acompanhar a intensidade daquele momento. Dentro de mim misturavam-se tristeza e alegria, numa dança confusa de emoções. Era como se algo profundo tivesse sido tocado, algo que não se explica, apenas se sente.
Durante todo este percurso havia também outra presença constante, ainda que à distância. Sempre que passávamos por um lugar especial eu tirava fotografias, ou gravava pequenos vídeos, e enviava imediatamente para a minha filha Raquel e para a minha mulher Ana. Era a forma de as trazer connosco nesta viagem tão carregada de significado.
As reações eram instantâneas. O telefone vibrava quase de imediato com mensagens e chamadas emocionadas. A Ana dizia-me muitas vezes que chorava ao ver aquelas imagens, chorava e, ao mesmo tempo, sorria. Segundo ela própria, era um chorar de emoção, de saudade e de lembrança de dias muito felizes. Contava-me que as imagens despertavam memórias que estavam guardadas há tantos anos: as ruas, o mar, os lugares que tinham feito parte da nossa juventude.
A Raquel (que diz ter sangue Africano, e é verdade) também acompanhava tudo com enorme entusiasmo, fazendo perguntas, querendo saber mais sobre cada lugar, cada história. De certa forma, aquela partilha quase em tempo real fez com que esta viagem não fosse apenas minha e do meu filho. Tornou-se uma experiência de toda a família.
Um dos momentos marcantes foi entrar na igreja, junto ao Palácio Presidencial, onde casei, a 28 de junho de 1975. Durante anos essa imagem viveu apenas no álbum de casamento. Voltar ali, caminhar novamente desde o jardim até ao altar, foi profundamente emocionante.
Visitámos também a Ilha do Mussulo, onde a minha mulher viveu e cresceu. Ver aquele pôr do sol, o mesmo que durante anos tínhamos mostrado aos nossos filhos apenas através de velhos slides, foi quase mágico. No último dia ainda houve tempo para um mergulho na contracosta da Ilha de Luanda.
À noite, a cidade acolhia-nos com o som do Semba, algumas Cucas e uma gastronomia extraordinária com o inevitável aviso sobre o jindungo. E tudo isto foi vivido com a presença e o carinho de amigos que continuam a viver em Angola e que nos receberam com uma generosidade que nunca esqueceremos. A nossa gratidão para com eles e elas é eterna.
No final da semana dei por mim a dizer ao meu filho aquilo que melhor resume tudo o que senti: chorei, ri e dei gargalhadas.
Foi uma viagem no tempo, mas também algo mais profundo. Quase espiritual. Voltar a Angola permitiu-me reviver memórias, mas também partilhar com o meu filho uma parte fundamental da nossa história. E, de certa forma, também com a Ana e com a Raquel, que viveram tudo connosco à distância.
Quando nos reconectamos às nossas origens sentimos que algo dentro de nós se recompõe como se ficássemos mais completos e mais ligados ao mundo que nos acolhe.
Joao Baptista Leite e Ana Maria Leite
Março 2026
