Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Beautiful Place 

Setembro de 2024. O destino nos arredores de Brisbane, Austrália. 15 dias de férias reservadas para a viagem, encaixados entre obrigações familiares. O estado de espírito era decidido. As expetativas, como eternas inimigas, não minhas, mas do meu gozo... tentei não as ter. Aliás já fiz esta viagem algumas vezes... no entanto é sempre diferente.

2500 pessoas eram esperadas no evento, durante uma semana, um ajuntamento em tendas, tudo bem organizado para suportar as eventuais indisposições climatéricas, apesar de ser primavera, outono em Portugal, ali nunca se sabe se vai acontecer uma tempestade ou chuvas intensas, o tempo nublado mas sem chuva é de todos o mais conveniente, porque o sol "morde", estando a terra virada para ele enquanto se vai aproximando do sol na sua órbita – não se sente essa "mordedura" em Portugal, apesar de no verão a terra se inclinar para o sol mais que no inverno, a terra está de facto mais longe do sol na sua órbita, logo ficamos mais protegidos dos seus raios.

Estava eu então decidido, a viagem bem planeada. O voo Lisboa Dubai durou oito horas, mais duas de espera pelo voo seguinte e depois mais treze até Brisbane, chegando lá pela meia noite. Tinha ainda de chamar um Uber e viajar durante uma hora até uma morada desconhecida para mim. A anfitriã combinou acordar quando eu chegasse mas depois enviou mensagem a dizer que deixava a chave debaixo da porta, mensagem que eu não vi, porque não tinha dados móveis... 'até que enfim', suspirei eu quando acabei por chegar à cama do alojamento local onde fiquei durante a primeira semana, para me ir ambientando à diferença horária, e também para ajudar como pudesse na montagem do evento, percorrendo de Uber os 13 km que me separavam do local do evento, porque não me atrevi a alugar carro, por ser um país de trânsito esquerdino. Vários dos motoristas que me transportaram ficavam curiosos, custava-lhes acreditar que tanta gente fosse àquele evento, ano após ano.

A tarefa que me coube foi na distribuição da comida entre os voluntários que montavam os palcos e audiovisuais do evento. A coordenadora era australiana, da zona, os colegas eram um espanhol das ilhas Canárias, um sujeito de uma amizade inesquecível, uma americana com costela espanhola, muito eficiente e workaholic, contrastando com uma inglesa adorável e sonhadora, e uma indiana recém-casada, cujo marido aparecia às vezes a dar apoio, já que estavam ali em lua de mel. Fizemos turnos e conhecemos a equipa de produção de eventos, servíamos o café da manhã, omeletes, sandwiches, e íamos de carro buscar a comida pré-preparada para almoços e jantares a um restaurante instalado noutra zona do terreno.

E passada a primeira semana mudei-me para a tenda que me estava reservada no terreno do evento, para onde confluiu gente de todos os cantos do mundo. 'How are you?' 'Fine', respondi com um esgar de sorriso, enquanto esperava pela comida num dos muitos restaurantes improvisados com comida do mundo na zona do convívio e das lojas. 'Sorry, are you Peter Wilkins... you look just like him, Peter from New Zeland?' 'No, not me, I'm from Portugal'. 'Amazing the resemblance, even the way you dress, it's just the same...' Foi reconfortante saber que tinha um sósia chamado Peter Wilkins, que se vestia assim, como eu nunca visto, dei comigo todo de preto, calças e camisola térmica, com botas de surf e tudo. Já noutra ocasião me tinha dito um amigo que me viu na Argentina, ao que parece andava por lá outro sósia, sem eu saber, com a mesma atitude e tudo, concluo que todos somos bastante iguais, embora uns mais do que outros.

Sobre o evento propriamente dito não vou comentar, fico-me pela descrição do ambiente, deixando a imaginação de cada um pairar qual dente-de-leão, mais leve que o ar, sobre a experiência densa e fluida que vivi. O local do evento é simplesmente mágico, a natureza selvagem e a beleza estonteante, ou não fosse o terreno apelidado de "terra bonita" na língua ancestral aborígene. Aqui e ali viam-se wallabies, uma espécie de cangurus pequenos, por vezes com um filhote a espreitar da bolsa na barriga, que ficavam sentados a olhar para nós, sem medo mas expectantes, não fosse um de nós ultrapassar os limites do decoro, o que nunca aconteceu.

Ainda assim, quando alguém se punha a olhar demasiado, iam a saltitar em grupos para outro posto de observação mais seguro. Fomos avisados sobre as serpentes que podiam aparecer-nos ao caminho, venenosas, a evitar, mas nunca as vi.

E os pássaros? Uma sinfonia autêntica ao acordar! Pela madrugada começa um, o chamado early bird, numa melodia simples e repetitiva, depois junta-se uma espécie de cotovia numa gargalhada, depois uma pega local, depois outro pássaro açougueiro, e depois mais outro e mais outro, vão entrando na orquestra em grupos, as secções de cordas, os metais, e às tantas o ar fica cheio de um volume inacreditável de sons caóticos, intensos, impossíveis, e estranhamente harmónicos. Depois do almoço os pássaros fazem uma sesta, a que se segue nova sinfonia, mas menos intensa, do tipo allegro ma non tropo.

Os dias do evento sucedem-se num tempo paralelo, até que o este se esgota e há que fazer a viagem de volta, tentando absorver os estímulos e a aprendizagem da semana, em preparação do que se seguirá, enfrentando o mundo em constante mudança da vida moderna, depois desta visita a um mundo intemporal, à escala humana com certeza... e talvez não só.

Adriano Lanhoso

17 Janeiro 2026