Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

As três meninas em Macau
"Viajar – deixa-nos sem palavras e depois transforma-nos em contador de histórias" – Ibn Battuta
Foi em Março de 2019 que eu, a Júlia e a Becas resolvemos ir pela segunda vez a Macau. A Júlia mais uma vez convidou-nos para a acompanhar, porque tinha assuntos a resolver lá, e nós não nos fizemos rogadas. Da primeira vez, em Novembro de 2018, percorremos Macau de lés a lés, visitando todos os seus magníficos casinos, calcorreando todas as suas ruas e ruelas, absorvendo aquela exótica cultura oriental. Comemos pasteis de nata com sabor a gengibre, (pou tat), que significa "tarte de ovo portuguesa". Curioso como os chineses tão pouco dados a sobremesas doces, se fascinaram com os pastéis portugueses. E assistimos a pessoas passeando os seus pássaros engaiolados, nos jardins, como quem passeia um cachorro. Desta vez resolvemos explorar mais a vizinha China, pois já conhecíamos bem Macau.
Que visitar? Decidimos partir de Macau e entrar na China propriamente dita, por Zhuhai. E visitar pelo menos Guilin, Xangai, Xian e Pequim.
Comodamente sentada em casa, frente ao meu portátil, eu reservei e comprei os bilhetes todos. Sozinha! Pela primeira vez, meti-me numa tarefa destas, e não é que funcionou?
Em 25/3/2019 partimos de Lisboa, pela Emirates, fizemos escala no Dubai e depois chegámos a Hong-Kong. Aí apanhámos um autocarro para Macau. Experimentámos a novíssima ponte inaugurada cinco meses atrás e considerada a maior travessia marítima do mundo. São 55 km que ligam os três principais polos do delta do Rio das Pérolas. Inclui um túnel subaquático de 6,7 km e duas ilhas artificiais. A viagem por esta ponte demora 30 a 45 minutos, o que sem a ponte, demorava 4 horas.
No dia 27 já estávamos em Macau. As três meninas em Macau. Porquê este nome? Criámos um grupo de WhatApp para partilhar fotos e informações entre nós, a que demos este nome. Ainda hoje o usamos para nos felicitar e saudar o início do Ano Novo Chinês.
Revimos alguns casinos, as ruínas da Igreja de São Paulo e jantámos com os amigos que nos acolheram na sua casa e com alguns amigos deles.
No dia 29 atravessámos a fronteira de Macau para a China propriamente dita, em Zhuhai. É só passar uma porta. Aí apanhámos um autocarro onde os bancos eram poltronas individuais, completamente reclináveis e superconfortáveis, em direção a Guangzhou. Também chamado Cantão.
É uma das três maiores cidades da China, com mais de 2200 anos de história e foi um dos terminais da Rota da Seda marítima. Hoje tem mais de 11 milhões de habitantes na área urbana e cerca de 25 milhões na área metropolitana. Possui grandes e belos edifícios como a Casa da Ópera, a Torre de Cantão, a Torre Zhenhai, e a Catedral do Sagrado Coração. Possui um dos mais caros mercados imobiliários da China. Após a conquista portuguesa de Malaca, Rafael Perestelo viajou para Cantão em 1516. O seu relatório induziu Fernão Pires de Andrade a navegar para a cidade com oito navios, no ano seguinte. Escravizaram mulheres e crianças e envolveram-se em pirataria. O governo de Cantão expulsou-os, vencendo os portugueses na Batalha de Tamão em 1521. O Acordo Luso-Chinês de 1554 foi o primeiro acordo entre portugueses e as autoridades de Cantão, que permitiu a legalização das suas atividades comerciais na China mediante o pagamento duma taxa, abrindo caminho para o estabelecimento de Macau como entreposto português, três anos depois. Tem grandes arranha-céus e lojas com roupa bem bonita e atual. Ficámos no Guangzhou Good International Hotel, previamente escolhido em Lisboa, onde conseguimos um quarto com três camas.
Fomos a uma estação ferroviária validar os bilhetes de comboio. Eu tinha comprado todos os bilhetes de avião e comboio online. Mas os bilhetes de comboio comprados online tinham de ser convertidos em papel em qualquer bilheteira duma estação de comboios. Eu estava um pouco receosa de que o processo funcionasse, mas sim, sem qualquer problema a senhora da bilheteira em Guangzhou deu-nos os bilhetes de comboio, em papel, de todas as viagens ferroviárias que iríamos fazer pela China.
No dia 1 de Abril fomos de comboio para Guilin, onde ficámos dois dias. É uma pitoresca cidade medieval, rodeada de montanhas cársticas, cobertas de vegetação luxuriante, banhada por vários rios e terraços de arroz. Ficámos no Guilin Riverside Hostel. Bem charmoso, à beira dum rio. Da janela do nosso quarto, que dava para o rio, acordávamos de manhã, com uma suave música chinesa e um pequeno grupo de mulheres a fazer Tai-Chi, à beira do rio.
O mais significativo em Guilin foi o passeio pelo Rio Li, até Yangshuo, através do chamado Li River Cruise. As paisagens rochosas das margens, com uma vegetação luxuriante e pequenas cascatas, são lindíssimas e semelhantes às que vi posteriormente, no Vietnam em Halong Bay. Durante a viagem conhecemos uma rapariga da Colombia cujo modo de vida era simplesmente viajar. Os proventos do seu Blog e redes sociais (El Viajo de Caro) onde relata essas viagens, chegam-lhe para viver! Yangshuo é uma pequena povoação com muitas lojinhas para turistas junto ao porto. À saída do barco, em Yangshuo, vimos uns pescadores muito interessantes. Em jangadas de troncos de bambu, eles usam cormorões (grandes corvos-marinhos), numa técnica chinesa, com mais de 1000 anos. Os pescadores treinam as aves mergulhadoras para capturar peixes. Colocam um anel ou laço no pescoço da ave para impedir que engula peixes, que são depois retirados pelo pescador. Em Guilin fica-nos a imagem, nas ruas, de inúmeras motas, cobertas com uns toldos de plástico transparente, para se protegerem da chuva. É um espetáculo a variedade de cores e formatos desses chapéus.
No dia 3 de abril fomos de avião de Guilin para Xangai, onde ficámos quatro dias. Infelizmente chegámos às 23:25h, e assim não pudemos experimentar o comboio magnético (Maglev) que liga o Aeroporto Internacional de Pudong ao centro de Xangai, pois funciona só entre as 06:45h e as 21:40h. Opera diariamente com saídas a cada 15 a 20 minutos. A viagem de 30 km dura apenas 7 a 8 minutos, atingindo velocidades de até 300-430 km/h. Mau planeamento da minha parte… fica para a próxima!
Xangai surpreende logo pela fusão única entre o estilo tradicional chinês e os arranha-céus futuristas. Agora, depois de ler o livro "O Imperador Vermelho, Xi Jinping e a Nova China", de Michael Sheridan, reconheço o grande papel de Xi Jinping no desenvolvimento de Shangai. É uma das cidades mais modernas e vibrantes da China. Sobretudo à noite ficamos fascinados ao passear na Bund, a famosa avenida ribeirinha de Xangai, ao longo do rio Huangpu. Numa das margens estão edifícios históricos de estilo europeu, mas ficamos impressionados com a grandiosidade dos altíssimos edifícios iluminados do outro lado do rio no bairro de Pudong, o centro financeiro de Xangai.
De dia e de noite, perdemo-nos na Nanjing Road, a rua comercial mais famosa de Xangai e uma das mais movimentadas do mundo. Esta avenida tem uma enorme variedade de lojas que vão desde marcas internacionais de luxo a boutiques locais. À noite, Nanjing Road transforma-se com as suas luzes de néon, criando uma atmosfera vibrante e moderna, permitindo-nos absorver a energia cosmopolita de Xangai.
Num destes dias combinámos encontrar-nos com os nossos amigos caminhadeiros Gilberto e Teresa Santos, no Peace Hotel. Eles estavam de visita aos filhos e netos. Foi engraçado cruzarmo-nos com amigos a mais de 10700 km de casa. No Bar do Hotel fomos brindados com uma sessão de jazz em chinês pela Old Jazz Band. Numa das paredes apreciámos uma fotografia com a legenda "Mr. Jorge Sampaio, the President of Portugal, 1997". Ou seja, Jorge Sampaio também esteve ali a ouvir jazz.
Estivemos em Xangai quatro dias. Deu para ver bastante. Não pode faltar a Torre de Xangai que é o segundo edifício mais alto do mundo e uma das principais atrações da cidade. Com 632 metros de altura, oferece uma vista panorâmica de Xangai do seu miradouro, no piso 118. Esta torre tem uma estrutura em espiral que simboliza o progresso e o crescimento da cidade.
Partimos de Xangai no dia 6 de abril. Usando o bilhete comprado em Lisboa, fizemos o percurso Xangai- Xian no comboio-cama No.: Z252. Partida às 15:52 h ; Chegada às 07:57 h. Duração: 16h 5m (1380km). Foi cómodo aproveitar o tempo da viagem para dormir.
Em Xian ficámos no 7 Sages (Qixian) International Youth Hostel, dois dias 7 e 8 de Abril. O nosso quarto tinha uma mezanine com uma das camas. Claro, que ficou para mim. Havia um grande pátio interior cheio de plantas e estatuetas chinesas, onde se tomava o pequeno almoço e refeições ligeiras e onde vários jovens se entretinham com o computador, a ler, ou a conversar, num tranquilo ambiente Zen. Xian é uma das cidades mais antigas e culturalmente ricas da China, conhecida como o ponto de partida da famosa Rota da Seda e pela sua história de mais de 3000 anos.
No dia da chegada a Xian fomos logo ver as famosas esculturas de terracota. Apanhámos um autocarro até à zona. Assim que chegámos fomos abordadas por uma simpática guia que aceitámos para nos ir explicando tudo o que havia a saber sobre este exército de soldados soterrados. Construído para proteger o túmulo do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, o exército é composto por milhares de soldados, cavalos e carros de terracota em tamanho real, cada um com características faciais únicas. Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China viveu em 260-210 a.C. foi rei entre 247 a.C. e 221 a.C., ano em que se tornou imperador da China, o 1º. Em 221 a.C., o rei guerreiro realizou algo que nenhum outro líder tinha. Ele uniu o reino e criou o primeiro império chinês. Embora fosse um severo governante despótico, ele deixou importantes legados: o início da construção da Grande Muralha da China, uma vasta rede de estradas que ligava o seu império, e um sistema de pesos, medidas, dinheiro e escrita.
Qin Shi Huang embarcou numa busca vã pelo elixir da vida. A lenda sobre a Montanha da Imortalidade levou-o a viajar três vezes para a ilha de Zhifu. Ele também construiu túneis secretos sob os seus 200 palácios para que pudesse viajar com segurança sem ser visto, e forçou estudiosos, alquimistas e magos a focar toda a sua atenção em encontrar uma cura para a mortalidade.
Ironicamente, Qin Shi Huang morreu por beber o mercúrio que ele acreditava o tornaria imortal.
O complexo do mausoléu foi construído num espaço que abarca perto de 100 quilómetros quadrados, para servir como um palácio ou corte imperial. Além do exército de soldados em terracota também existem esculturas de bailarinas, acrobatas, músicos, concubinas e aves de bronze, tudo o que poderia contribuir para o bem estar e entretenimento do Imperador após a sua morte.
Tivemos o privilégio de cumprimentar o senhor Yang Gaojian, uma das pessoas que descobriu, em março de 1974, este tesouro enterrado. Na altura da descoberta ele tinha 18 anos e era agricultor. Agora ele estava ali, vivo, a tirar fotografias connosco e a autografar uns postais que comprámos.
No dia seguinte, visitámos entre outras coisas, a Muralha da Cidade que é uma das mais bem preservadas na China. Construída durante a dinastia Ming, esta muralha antiga tem cerca de 14 km de extensão e circunda o centro histórico de Xian. Tem 18 metros de altura e 15 metros de largura. Passeámos aí, com uma vista panorâmica incrível para o centro histórico e arredores de Xian.
Xian tem mais de 3100 anos de história, é o limite oriental da Rota da Seda e foi a capital da China ao longo de várias dinastias. Actualmente, Xian é conhecida pelo rock, e é um dos vigorosos centros de música underground na China e é um importante polo cinematográfico, produzindo grande parte dos filmes chineses.
No dia 8 de abril apanhámos o comboio No.: Z44 de Xian para BeijingWest. Ainda tenho a reserva: Ticket Type:Deluxe Soft Sleeper Depart: 19:27; Arrive: 08:22 Duration: 12h 55m. ChinaTour.Net Train Ticket Booking ID: 211489;Your China Train Tickets Booking has been confirmed. Carriage Number: 14, Sleeper/Seat Number: 03 lower bed, 05 lower bed, 04 upper bed. Total Amount: $385 (2,570CNY).
Viagem tranquila e confortável. Até tínhamos uma cafeteira cheia de café e fruta numa mesinha junto à janela.
Em Pequim estivemos de 9 a 13 de abril. Nestes quatro dias vimos, entre outras coisas, a Praça Tiananmen, a Grande Muralha da China e o Templo do Céu.
Pudemos explorar sem pressa as antigas ruas da cidade, a melhor forma de conhecer o lado mais amável de Pequim. Ao percorrer os míticos hutongs, vielas e becos históricos de Pequim, com mais de 700 anos, formados por casas tradicionais com pátios centrais. Representam a arquitetura vernácula chinesa e o estilo de vida antigo, sendo um símbolo cultural da cidade. Tivemos a possibilidade de ver os cidadãos a realizar as suas atividades quotidianas longe da agitação das grandes avenidas.
A Praça da Paz Celestial ou Praça Tiananmen é a terceira maior praça pública do mundo, só superada pela Praça Merdeka, em Jacarta, na Indonésia, e pela Praça dos Girassóis, em Palmas, no Brasil. A praça tem ao norte a Cidade Proibida, no centro contém o Monumento aos Heróis do Povo, de 38 metros, com inspiração do presidente Mao Zedong, onde está escrito "os heróis do povo são imortais". A leste e oeste foram construídos importantes edifícios de estilo soviético. A avenida é usada para desfiles do governo da China. Na praça também está o Mausoléu de Mao Zedong. Para os chineses a praça é conhecida como o coração simbólico do país e para os estrangeiros é conhecida pelos protestos de estudantes em 1989.
A 4 de junho de 1989, o regime da China esmagou um protesto liderado por estudantes. O número de mortos nunca foi revelado pelo governo, mas pode chegar aos milhares. O governo enviou tropas e tanques para esmagar os protestos pró-democracia liderados por estudantes. O evento foi censurado nas notícias e redes sociais e a sua discussão, evitada. Quando perguntámos aos chineses com quem contatámos, nenhum sabia, ou se sabia, fingia que não sabia nada mas nada mesmo, sobre o assunto. Agora os turistas passeiam pelo local sob um forte dispositivo de segurança.
Visitámos também o Templo do Céu, ou Tian Tan, um dos maiores recintos sagrados da China. Construído durante o reinado da dinastia Ming, era o lugar onde o imperador fazia sacrifícios para agradecer ao Céu pelos frutos obtidos e pedia pelas futuras colheitas. O templo está localizado num parque muito agradável onde diversos chineses praticam tai chi, jogam cartas, ou participam de aulas de dança.Entre os edifícios mais importantes destacam-se os seguintes: Qinian Dian: O Templo das Rogativas pelas Boas Colheitas é um edifício circular, azul, que simboliza o Céu, o lugar onde o imperador realizava sacrifícios e que compõe a parte mais importante do templo. Abóboda Imperial do Céu: O pavilhão que se usava para guardar os elementos cerimoniais e que está rodeado pelo Muro do Eco, um painel que produz surpreendentes efeitos sonoros. Salão da Abstinência: O edifício onde o imperador passava a noite anterior aos rituais e é uma pequena reprodução da Cidade Proibida.
Caminhámos pela avenida Wangfujing, que é o principal centro comercial de Pequim, misturando luxo moderno com tradição chinesa. Possui, pelo menos, 2 km de extensão e o nosso hotel estava localizado ali. Havia um elétrico que subia e descia esta avenida, constante, mas vagarosamente num único carril com os dois sentidos. Esta rua pedonal icónica oferece grandes marcas, livrarias centenárias e lojas de chá. Vimos à venda, numa dessas livrarias, vários livros de José Saramago.
Numa das transversais, numa estreita rua visitámos ao cair da noite, o mercado de Wangfujing. Uma multidão de gente. A animação é realmente contagiante. O artesanato típico chinês encontra-se ali. Dezenas de barracas expelem fumo sem parar enquanto preparam os seus aromáticos espetos de variados sabores. Estrelas do mar, cavalos-marinhos, serpentes, aranhas, escorpiões e baratas são alguns dos grelhados mais peculiares que se vendem… Eu não os provei… São sobretudo uma atração turística, não fazem parte do menú habitual dos chineses. Vimos também muitos patos lacados, suspensos nas montras de vários restaurantes.
No dia 11 fomos visitar a Grande Muralha da China. Contratámos o passeio numa agência de viagens e fomos de autocarro, com guia. A parte visitável a que fomos, não fica longe de Pequim. O autocarro deixou-nos junto à muralha e depois subimos de teleférico para a muralha. Vimos que muitas pessoas regressavam por uma espécie de escorrega, em vez de teleférico. Devia ser divertido, mas não experimentámos. São mais de 21000km de muralha, com cerca de 40000 torres de vigia. A sua função era a defesa contra os povos nómadas das estepes da Mongólia e da Manchúria. É Património Mundial da Unesco desde 1987.
No dia 13 tentei imprimir os cartões de embarque que obtive no telemóvel. No hotel ninguém falava inglês. Conseguimos entendermo-nos com aplicações de tradução do telemóvel. Mas não consegui que imprimissem os papéis. Por acaso, encontrámos depois, uma lojinha de vão de escada, onde fizeram essa impressão. Afinal, no aeroporto, não foi preciso. Bastou dizer os nossos nomes, já estava tudo no sistema.
Regressámos a Lisboa no dia seguinte de alma cheia e com vontade de regressar um dia.
"A verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novas paisagens, mas sim ver com novos olhos" – Marcel Proust.
Acilina Caneco
