Silêncio

22-01-2026

Em Silêncio, Thich Nhat Hanh convida o leitor a redescobrir uma dimensão esquecida da experiência humana: o silêncio interior. Não se trata da ausência de som, mas da capacidade de aquietar o ruído constante da mente — pensamentos, medos, julgamentos e distrações — que nos afastam de nós próprios e da vida tal como ela é.

O autor parte da ideia de que vivemos imersos num "ruído" permanente, alimentado pelo consumo, pela velocidade e pela necessidade de preencher todos os vazios. Esse ruído funciona como uma fuga: evita que entremos em contacto com a dor, o medo e a solidão que carregamos. O silêncio, pelo contrário, exige coragem, porque nos coloca frente a frente com aquilo que tentamos evitar.

Ao longo do livro, Thich Nhat Hanh mostra que o silêncio verdadeiro nasce da atenção plena (mindfulness). Através da respiração consciente, do caminhar atento e da escuta profunda, aprendemos a habitar o momento presente. Quando a mente abranda, torna-se possível reconhecer e acolher o sofrimento — nosso e dos outros — sem o negar nem o amplificar.

Um dos eixos centrais da obra é a relação entre silêncio e escuta. Para o autor, escutar verdadeiramente alguém requer silêncio interior: suspender reações automáticas, opiniões e respostas apressadas. Essa escuta compassiva tem um poder profundamente curativo, tanto para quem escuta como para quem é escutado, e constitui um fundamento ético e espiritual para a convivência humana.

O livro aborda também o sofrimento coletivo — violência, injustiça, destruição ambiental — mostrando que a transformação do mundo começa na transformação da consciência individual. O silêncio não é fuga nem passividade; é a base de uma ação lúcida, enraizada na compaixão e na responsabilidade.

Silêncio é, assim, um livro que nos convida a desacelerar, a criar espaço interior e a confiar que, quando o ruído se dissipa, a vida revela a sua profundidade. Nesse espaço silencioso, encontramos não apenas paz, mas também clareza, ligação e sentido.

Ana Paula Melo
Janeiro 2026