O Silêncio Ensurdecedor

20-01-2026


O silêncio ensurdecedor

Queria escrever sobre o silêncio, mas sempre que tentava começar, surgia invariavelmente a expressão silêncio ensurdecedor. A sua persistência acabou por se tornar um convite à reflexão e acabei por concluir que este "tipo de silêncio" merecia um olhar mais atento.

O silêncio não é uma realidade única nem simples. Pelo contrário, assume múltiplos papéis conforme o contexto em que surge. Pode ser pausa necessária, espaço de contemplação, gesto de resistência, sinal de poder, marca de um limite ou até uma forma subtil de presença. Nas suas várias dimensões, o silêncio tanto pode comunicar como ensinar. Há silêncios que acolhem, que organizam o pensamento, que nos permitem escutar melhor a nós próprios e aos outros.

Mas o chamado silêncio ensurdecedor pertence a outra categoria. É um silêncio incómodo. Não tranquiliza, não abriga, não cria espaço. Pelo contrário, pesa. Reflete desconforto, constrangimento, irritação ou a sensação difusa de que algo ficou por dizer. É o silêncio que se instala quando a ligação se fragiliza, quando a comunicação é evitada em vez de cuidada.

Talvez por isso seja importante estarmos atentos a estes silêncios e evitarmos permanecer demasiado tempo neles. Não porque o silêncio seja, em si, um problema, mas porque este tipo específico de silêncio sinaliza algo que precisa de ser olhado. Identificar o que incomoda, clarificar internamente o que está em causa e ganhar coragem para dar os passos necessários para voltar a estabelecer a ligação.

Quebrar um silêncio ensurdecedor não exige dramatismo nem grandes alaridos. Exige, isso sim, intenção e honestidade. Um gesto, uma palavra, uma pergunta certa, podem ser suficientes. O essencial é que o silêncio seja interrompido, porque esse é o entendimento partilhado por quem está envolvido: há algo que precisa de voltar a circular.

Muitos conflitos e mal-entendidos nascem precisamente da incapacidade de gerir estes silêncios incómodos, de os reconhecer e transformar em diálogo, em aproximação, em nova sintonia.

Não é preciso evitar o silêncio, o que é importante é a capacidade de o escutar e de reconhecer quando ele já não protege, já não cuida, já não serve.

Porque há silêncios revigorantes.
E há silêncios que pedem, urgentemente, para ser quebrados.

Ana Paula Melo
Janeiro 2026