O Silêncio do Meu Pai Hoje

O Silêncio do Meu Pai Hoje
O meu pai sempre foi um homem de palavras!
Mas agora… agora é o silêncio inteiro que lhe habita o corpo.
Está velhote! O rosto vincado pelo tempo, as mãos lentas, os ouvidos quase fechados
ao mundo. Fala pouco e quando fala, é como se as palavras tivessem de
atravessar um nevoeiro espesso.
À mesa, continua a sentar-se no mesmo lugar.
Mas já não comenta nada. Já não pergunta se está bom, nem repara se falta sal.
Olha para a comida como quem olha para algo distante. Como quem já não tem
pressa, nem apetite, nem assunto.
O seu olhar, antes atento, agora parece longe. Quase ausente. Como se estivesse
de passagem por esta vida, à espera de qualquer coisa que só ele sabe.
E eu olho para ele com um nó na garganta.
Lembro-me das nossas conversas de antigamente, do modo como ouvia, realmente
ouvia o que eu dizia. Agora, nem sempre me ouve, nem sempre me entende.
Mas está ali. Sentado. Com a dignidade silenciosa de quem já viveu muito.
Com a cabeça pendida ligeiramente para o lado, como se escutasse memórias em
vez de vozes.
E eu, que cresci à sombra da sua força, vejo-o assim, frágil, calado, quase
transparente e percebo que há dores que não se dizem. Apenas se carregam.
No silêncio do meu pai hoje, há o cansaço dos seus 92 anos.
Mas também há tudo o que ele foi.
E tudo o que me deu, sem dizer.
E assim, mesmo sem palavras, ele continua a ensinar-me o que é o amor:
Estar! Simplesmente Estar!
Célia Almeida
Janeiro 2026
