5º Aniversário Transições Graça Raposo

19-03-2026

Cinco anos… transitar com filosofia

No dia em que aderi à Transições, já estava instalada na reforma à muito tempo, rodeada de uma família muito querida e presente, de muitos amigos de todas as idades, e cheia de projetos mas com muitas responsabilidades.

Atravessava na altura uma tempestade emocional inesperada, e terrível, a cuidar da minha filha, detetada bipolar, e logo a seguir a enfrentar os tratamentos paliativos do meu marido.

Estava fechada a novas amizades, sem tempo para oferecer, sem disposição para receber.

Construi a minha vida, ao abrigo da filosofia de Aristóteles e sentia-me protegida pelas amizades que, ao longo dos últimos 60 anos, com paciência e dedicação, fui guardando em camadas de amigos que "cultivo" como as flores.

Tinha tomado consciência aos 10 anos quando, ao emigrar, perdi todos os meus amigos, que não seria fácil viver em solidão, rodeada só da família. Ninguém escolhe viver sem amigos.

Certas experiências da vida abrem caminhos fantásticos que, sem elas, seriam impossíveis de percorrer, com tanta intensidade.

Como o célebre filosofo grego, tenho as minhas amizades bem identificadas em três tipos :

  • As amizades interessadas, que são aquelas que consistem em trocar um serviço por outro : Eu rego-te as flores durante as tuas férias. Tu guardas o meu gato no próximo fim de semana. Gosto muito destas amizades porque são muito úteis!
  • As amizades por prazer, que consistem em partilhar momentos agradáveis, à procura duma emoção fugaz, que se pode repetir, como a refeição com um colega de trabalho, um passeio de bicicleta, aos domingos, com o vizinho ao lado de casa. De vez enquanto…perco uma destas amizades.
  • As amizades baseadas no carácter, muito mais virtuosas. Unem-me a pessoas que eu aprecio pelo que são, que agem sobre mim de maneira positiva, com tendência a fazer de mim uma pessoa melhor. É nesta categoria de amizades que conto o maior número de amigos.

Mas, para chegar a este resultado, foram necessários 60 anos.
Para mim, fazer novos amigos, ou manter uma velha amizade, foi sempre um verdadeiro desafio, e romper ligações com um amigo próximo chegou a ser mais doloroso do que terminar um namoro.

Ao entrar na Transições, fui confrontada com a utilidade da minha ligação a esta organização de pessoas.
Tive de enfrentar algumas realidades: já não teria tempo de criar novas amizades de tipo 3, que são as minhas preferidas, as que me oferecem mais emoções, que me enchem a alma, porque fundadas sobre o reconhecimento mutuo do valor do outro, e sobre o desejo sincero de tudo fazer para o seu bem estar, e o seu bem viver.
Aderi então à Transições, pela porta das amizades de tipo 1.
Estava a necessitar de fugir à tristeza do dia a dia, e ouvir os membros da Transições, a partilhar ideias, viagens, experiências, leituras, aos quadradinhos de 3 cm x 3 cm no meu ecrã, foi muito útil... mas não durou muito tempo.
Senti a falta de reciprocidade e nasceu a vontade imperiosa de participar nas atividades de forma concreta.
Fui arrastada para a escrita, para a pintura, para os passeios fotográficos, para as caminhadas, e para os mais variados desafios, sempre com um apoio, um acompanhamento, e uma simpatia que me emocionavam.
Arrastei, em retorno, alguns membros da Transições para o Vietname e para atravessar Paris.
Chegou o momento de refletir sobre o tempo que me restava para viver as novas amizades de tipo 1, ou de tipo 2, dado que as outras são mais exigentes.
Mas depressa me apercebi que muitas dessas amizades já tinham chegado ao nível 3, o que implica honestidade, aceitação e altruísmo.

Como escrevia Aristóteles, "o amigo é então um espelho exigente: ele envia não uma imagem fixa, mas uma potencialidade a ser atualizada. Ele vê no outro o que este poderia ser se realizasse plenamente suas capacidades. Neste sentido, a amizade é uma alavanca de transformação recíproca. Cada um ajuda o outro a superar-se, até, talvez, superá-lo - o que não é um problema, mas o próprio sinal da qualidade do relacionamento. O ideal não é a simetria, mas a circulação dinâmica da exigência, numa forma de competição saudável."
Aristóteles não fala da amizade como uma simples afinidade, mas como um espaço de educação mútua, onde a progressão moral de cada um é ao mesmo tempo objetivo e mecanismo.
Aqui há uma lógica de aperfeiçoamento recíproco, onde cada um se torna, para o outro, um parceiro de exigência.

Mas uma amizade - seja qual for a tipologia - nunca desaparece realmente...
E para Aristóteles a palavra final: "Aquele que não é mais teu amigo, nunca foi."

Grata, imensamente grata.

Parabéns à jovem Transições.

Graça Raposo

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