Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"Vietname - Gente que ri até não ter dentes"
Em novembro de 2024 fiz uma viagem ao Vietname. Uma viagem que resultou de um workshop da serie "Viagem Inesquecível". Durante 2 horas a Graça Raposo levou-nos a visitar o Vietname, de Norte a Sul, levou-nos na sua "viagem inesquecível" e encantou-nos.
Para muitos dos participantes, ficou logo a vontade de conhecer mais e muito rapidamente se organizou um grupo de 12 pessoas para fazer essa viagem. Para mim o desafio começou logo ali.
Era a primeira vez que viajava em grupo sem ser no contexto da família, a primeira vez que viajava para um destino tão longínquo, e a primeira vez que viajava durante tanto tempo, foram 18 dias fora de casa.
Mas era também uma oportunidade única, a viagem era organizada pela Graça que já tinha visitado o país 4 vezes e com quem me identifico na forma de estar e viajar. Por isso, decidi arriscar.
Foram 18 dias intensos, onde vimos muito do Vietname, nas suas várias facetas e contrastes:
Fomos de Norte a Sul.
Dormimos em hotéis e em casas de família, em colchões no chão.
Comemos em restaurantes, em casas de família e em tascas de rua.
Experimentámos comidas diferentes. A cozinha vietnamita é variada, colorida e deliciosa
Caminhámos na montanha e andámos no bulício das cidades.
Interagimos com algumas etnias, que ainda preservam os seus costumes ancestrais, e vimos sinais claros de modernidade e globalização, em particular nas cidades.
Andámos muito a pé, subimos 500 lances de escada, andámos de bicicleta, de canoa, de barco, de comboio, de autocarro, de avião, e até de táxi/moto.
Visitámos mercados, templos, pagodes, museus, e até fomos à Ópera ver um espetáculo.
Fizemos ginástica e dançámos ao nascer do sol no lago de Hanoi, onde um pouco por todo o lado as pessoas se auto-cuidam praticando diariamente Tai-chi, danças orientais, alongamentos, auto-massagem, meditação, danças de coordenação e até danças aeróbicas.
Longevidade, envelhecimento ativo, saúde, bem-estar... Não são palavras soltas, no Vietname conjugam-se no presente.
Deslumbrámos-nos com as cores e os sabores...
Mas foram as gentes que mais me encantaram, que mais me fizeram pensar, que mais me fizeram "viajar para dentro".
Gente que "ri até não ter dentes" como nos disse uma das nossas guias, gente com uma enorme resiliência, que os fez resistir às várias invasões ao longo dos séculos e ainda manter a alegria de viver.
Foram 18 dias de muita atividade, mas também de muita introspeção. O contacto com uma cultura tão diferente não me podia deixar indiferente.
Cada contacto com as gentes foi uma história que guardo na memória e no coração.
Mas há uma em particular, que me marcou, e é essa que aqui quero contar - a história das mulheres da montanha.
No quarto dia da nossa viagem, partimos de Sapa, em direção à vila Ta Van, onde se inicia a nossa caminhada por Y Linh Ho. São 5 horas na montanha, de paisagens deslumbrantes, sobre campos de arroz, e onde vamos estar em contacto com as etnias Hmong e Dao, duas das muitas etnias que existem no Vietname e que ainda mantêm as suas tradições.
Estava preparada para a caminhada ... talvez não estivesse preparada para a montanha que iria escalar dentro de mim.
Logo à chegada vemos muitas mulheres a aproximarem-se como um ninho de vespas agitadas. Falam, gesticulam, numa língua que não entendemos.
A Graça alerta, ainda antes de sairmos do autocarro:
"Elas querem ser nossas guias, e vender os seus produtos, mas nós já temos uma guia contratada. Sorriam, recusem e sigam em frente".
Já vi este comportamento noutros locais, como no Quénia, com as mulheres da tribo Massai, e assim faço, vou sorrindo e abanado a cabeça, numa recusa que quero que seja delicada, mas estou visivelmente incomodada com a insistência.
A nossa guia, a Däu, uma mulher de baixa estatura e de cara enrugada (do sol? da vida?), tem uma idade indefinida e é da etnia Hmong. Apesar de ser a única contratada, e apesar da nossa recusa, mais dez mulheres se juntam a nós e nos acompanham na nossa jornada. São, na sua maioria, jovens, várias transportam crianças às costas, uma está grávida.
Levam mochilas às costas, cestos de vime, com alças de pano, onde têm o artesanato que nos querem vender: malas, mochilas, bonecos, panos, écharpes, chapéus, pulseiras...
Rapidamente, temos uma junto de cada um de nós que vai conversando connosco e indicando o sítio mais seguro onde colocarmos os pés. Choveu muito nos últimos dias e o caminho está enlameado e escorregadio.
Nós receosos e cuidadosos, apesar das nossas botas de caminhada, elas descontraídas, apesar de caminharem com os pés nus dentro dos chinelos de borracha típicos do Vietname, em cima daquele caminho de pedras rolantes.
Algumas falam inglês outras fazem-se entender na sua língua e com gestos.
A "minha" guia, se assim posso dizer, porque cada um de nós tem uma companheira, é uma jovem de 27 anos, que já tem 3 filhos. Fala inglês, conta-me a sua história e quer saber da minha.
Pergunta-me a idade digo-lhe, 64, e fica surpreendida por causa da minha pele, faz-me uma festa na cara para sentir. Aos 64 anos as mulheres da montanha tem a pele como a Dãu, de quem não apurei a idade, mas que suspeito terá pouco mais de 40.
Estranhamente, em vez de me sentir feliz pelo elogio "You look so young ", "Pareces tão nova", sinto subitamente uma vergonha que não sei bem explicar. Vergonha de ser uma privilegiada?
Sei que metade é simpatia, metade é marketing e que, no final, vai querer que lhe compre algo do que traz às costas. E quando mais próxima for a nossa relação durante a caminhada, mais fácil será a sua venda, mas deixo-me levar por esta conversa sobre a vida, sobre uma vida que desconheço e que é tão diferente da minha.
Enquanto caminham, as mulheres vão colhendo plantas com as quais fazem pequenos arranjos que nos vão oferecendo, um coração, uma cadeirinha, uma flor... Algumas trabalham enquanto caminham, tecendo fios de pedaços de junco, que trazem nas cestas, enrolam-nos no pulso para mais tarde fazerem as peças.
O Long, o amigo de origem vietnamita que nos acompanha nesta viagem, pega nas mãos da Dãu e nas de uma colega nossa e coloca-as junto. A Dãu ri-se divertida. Duas mãos de unhas pintadas, as da minha colega, de verniz vermelho, as unhas da Dãu "pintadas" do azul indigo que produzem e com que tingem os panos.
Qual a maior beleza? Difícil de dizer.
Aquelas mãos têm história, aquelas mãos criam as peças que muitos de nós compramos e usamos e que, a maior parte das vezes, nem valorizamos o seu trabalho.
A paisagem é deslumbrante. Passamos pelos campos de arrozais, em socalcos, que dão uma vista magnífica sobre o vale. Passamos por entre as aldeias e conhecemos também gente da etnia Zay.
Vemos patos, que buscam alimento no meio dos arrozais, galinhas, com os seus pintos atrás, javalis e búfalos completam a paisagem.
O caminho, entre montanhas e colinas, tem algumas subidas e descidas desafiantes, mas faz-se maioritariamente em terreno plano. A dada altura, numa das subidas mais íngremes, alguns de nós param a meio para recuperar forças, visivelmente cansados. Elas, que carregam filhos e cestas às costas, "estão frescas que nem alfaces".
A meio caminho paramos numa espécie de tenda onde podemos descansar as pernas e tomar uma água de coco e aí começa o bulício.
As nossas acompanhantes vão voltar para trás e querem vender-nos o conteúdo das suas cestas.
Sinto-me dividida. Por um lado, não preciso de nada, não quero deixar-me levar pelo consumismo, há muito que ando na senda do destralhanço, do "menos é mais".
Para além disso, muitas das peças que vendem são industrializadas e não artesanais, não são feitas à mão. Consta que, hoje, muitas até já são fabricadas na China, sabe-se lá em que condições.
Mas, como não ajudar aquelas raparigas? Como não ajudar aquelas crianças?
Vão voltar para trás com as mesmas coisas que trouxeram?
Para que servem os meus princípios se, no final, a elas lhes faltar a comida no prato?
Acabamos todos por comprar qualquer coisa. Eu comprei uma bolsinha para o telemóvel, uma écharpe (tenho tantas!), um cãozinho de pano, feito à mão, para dar no Natal à minha sobrinha neta.
Despeço-me da minha guia com um abraço forte, desejo sinceramente que tenha sorte na vida.
No final, quando fazemos a conta, o que deixámos foi insignificante, tão pouco para nós, e parece tão pouco para quem fez aquele caminho todo e tem família para alimentar.
Um mês depois, no Natal, quando a minha sobrinha se agarrou ao cãozinho feliz, lembrei-me daquelas crianças e pensei "valeu a pena". Para a Luísa, um brinquedo, para aquelas crianças, comida.
A meio caminho paramos numa aldeia, para almoçar, num restaurante com vista para a montanha e aí são as próprias crianças que vêm à nossa mesa vender, acompanhadas das suas mães.
"Madam, madam..."
De volta da Graça, que toma a liderança de nos defender perante aquela "invasão", as crianças, quais borboletas irrequietas, agitam os bracitos à frente da sua cara com colares e pulseiras. "Madam, madam, compraste a ela, tens que comprar a mim também".
Se é difícil dizer que não aos adultos, mais ainda é dizê-lo às crianças.
Mas a Graça move-se bem, regateia, dá lhes luta.
Já é tão barato... penso.
Mas elas gostam desta disputa e regatear também é uma forma de respeito como me disse uma vez uma mulher na Índia, encantada com a capacidade de negociação do meu filho.
E não deveriam estar na escola? Sim elas vão, até cruzámos com algumas a vir a pé da escola, de uniforme.
Mas fora disso... fazem muito mais…
Hyppolyte Taine dizia: "Viajamos para mudar, não o nosso lugar, mas as nossas ideias"
As minhas ideias, por certo estão em mudança, fervilham na minha cabeça.
Porque vivemos tão acima das nossas necessidades?
Porque nos queixamos, se temos mais do que precisamos?
Porque perdemos a capacidade de lidar com a adversidade?
Será que os nosso princípios, e a nossa noção de certo ou errado, resistem ao confronto com uma cultura diferente?
Quando perdemos o olhar atento sobre o mundo?
Quando perdemos o prazer das coisas simples?
Porque procuramos incessantemente a felicidade como um tesouro escondido e não a vemos ao nosso lado?
E sobretudo, saberei eu fazer diferente quando regressar?
Aqui, a muitos kilómetros de casa, não leio num manual, vejo e sinto:
Sim, é possível ser feliz com pouco
Sim, é possível ser feliz na adversidade
Trago comigo os risos das crianças
Trago comigo esta gente que "ri até não ter dentes"
Adeus Vietname
Até sempre!
Hélia Jorge
