Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

"Entre Rios e Impérios: Uma Viagem pela Alma da Rússia"
Foi em 2017 que o meu sonho se tornou realidade, ao desembarcar no aeroporto de Moscovo, num domingo à noite, em pleno mês de agosto, num dia em que os habitantes da cidade regressavam das suas datchas. A multidão movia-se como um rio humano, e logo percebi que esta viagem não seria comum: Moscovo não era apenas uma cidade, era um organismo vivo, pulsante, entre o caos e a ordem, entre o antigo e o moderno. De certeza,apenas o saber,que durante 11 dias, o meu porto de abrigo seria num barco fluvial que navegaria pelo rio Volga e canais.
Foi profundamente impressionante estar na praça central, na célebre praça vermelha, diante do imenso Palácio do Kremlin. Ali, onde a História parece respirar a cada passo, senti-me de novo criança. Recordei as imagens que via na televisão, das tropas em parada, dos desfiles rigorosos, quase solenes, que me fascinavam e, ao mesmo tempo, me intimidavam. Estar naquele espaço, ao vivo, foi como atravessar o ecrã da infância e entrar num cenário que durante anos existiu apenas na imaginação. O rigor das muralhas, a vastidão da praça e o silêncio denso que ali se sente fizeram-me perceber como certos sonhos não desaparecem, apenas aguardam o momento certo para se cumprirem. Moscovo, cosmopolita, parecia exalar poder e história em cada pedra, lembrando que a cidade nunca foi apenas capital: é algo muito maior, é palco das ambições de um país que se construiu entre tradições e modernidade.
Parti de Moscovo como quem fecha um livro a meio, sem saber ainda se o final traria consolo ou inquietação. O barco deslizava lentamente, como se tivesse consciência do peso da História que aquelas águas carregam. Não era apenas uma viagem entre duas cidades; era um atravessar de tempos, memórias e contradições.
A primeira paragem foi Uglich, cidade pequena e carregada de simbolismo, onde a memória do czar Dimitri paira como uma ferida antiga. Ali percebi como, na Rússia, a História não é passado distante, é presença constante, quase palpável,onde o ritmo da vida muda a uma cadência lenta. Seguiu-se Yaroslavl, uma das cidades mais antigas do Anel de Ouro, com uma arquitetura que impressiona pela harmonia e pela beleza, como se cada igreja e cada fachada tivesse sido pensada para resistir ao tempo.
Em Kostroma, o Mosteiro Ipatiev impôs-se como lugar fundador: berço da dinastia Romanov, carregava o peso de começos que mudaram o destino de um país inteiro. Depois, Goritsi ofereceu acesso ao imponente Mosteiro de Kirilo-Belozersky, isolado e austero, lembrando que a fé, tal como o poder, também procura lugares altos e silenciosos para se afirmar.
À medida que avançávamos, a paisagem tornava-se mais ampla e mais tranquila. A Ilha de Kizhi surgiu como um milagre de madeira: a sua igreja, Património Mundial da UNESCO, parecia desafiar a lógica e o tempo, erguida sem pregos, sustentada apenas pela engenhosidade humana e pela devoção. Foi um dos momentos mais marcantes da viagem, pela simplicidade e pela beleza quase irreal que resiste aos tempos e aos humores do Homem.
Petrozavodsk, capital da Carélia, abriu-nos as portas da região dos lagos. Ali, a natureza começava a impor-se sobre a grandiosidade histórica, lembrando que nem tudo é construído pelo homem. Pouco depois, a Ilha de Valaam revelou-se como um lugar de recolhimento e espiritualidade profunda. O mosteiro ortodoxo, no meio do Lago Ladoga, transmitia uma serenidade difícil de descrever, como se o silêncio ali tivesse uma densidade própria.
O Volga,largo, paciente, eterno, ensinou-me a lentidão. Num tempo em que tudo exige pressa, aquele rio lembrava que há vidas que se constroem devagar, com repetição e resistência. Uma resistência à vida e ao clima,entre os meses de outubro e fevereiro. Pensei no quanto confundimos movimento com progresso e no quanto, por vezes, avançar é apenas seguir o curso sem verdadeiramente escolher.
Dentro do barco, línguas diferentes cruzavam-se, mas o silêncio e a admiração era universal. Havia quem olhasse longamente para a água, como se procurasse respostas. Também eu o fiz. Refleti sobre as fronteiras invisíveis que criamos, entre países, gerações, ideias,e sobre como a água, indiferente a tudo isso, simplesmente passa, liga, une.
Quando as noites chegavam, o céu parecia maior. A luz prolongada do norte criava uma estranha sensação de suspensão, como se o tempo tivesse decidido abrandar para permitir que pensássemos melhor. Foi nessas horas que senti com mais clareza o contraste entre a grandiosidade das cidades e a humildade das pequenas comunidades ribeirinhas. E questionei-me: onde mora, afinal, a verdadeira grandeza?
São Petersburgo surgiu como um quadro cuidadosamente composto: elegante, melancólica, consciente da sua beleza. Diferente de Moscovo, que exala cosmopolitismo e poder, São Petersburgo é uma cidade imperial, projetada para impressionar, construída como obra da ambição de Catarina II. A Catedral do Sangue Derramado, com as suas cores intensas e mosaicos minuciosos, impunha-se como um testemunho doloroso e belo, onde a tragédia se transformou em memória eterna. A Catedral de São Isaac, grandiosa e solene, oferecia outra dimensão do sagrado: a da monumentalidade que eleva e silencia. O Museu Hermitage revelou-se como um mundo dentro do mundo; percorrer as suas salas foi atravessar séculos de criação humana, entre pinturas, esculturas e objetos que exigem não apenas o olhar, mas o tempo e o respeito.
Mas foi na dança que São Petersburgo se revelou de forma especialmente viva. Assistir a um espetáculo no Teatro Mariinski foi entrar no coração do ballet clássico, esse património russo reconhecido em todo o mundo. Os movimentos precisos, quase irreais, mostravam uma disciplina que transforma o corpo em linguagem pura. Ao mesmo tempo, as danças folclóricas lembravam a ligação profunda à terra e às tradições. A delicadeza da dança Berezka, com a sua ilusão de flutuação, contrastava com os passos circulares do khorovod e com a força dos trajes tradicionais, os sarafans, usados em celebrações culturais. Entre o rigor do ballet clássico e a expressividade das danças populares, revelava-se uma herança cultural rica e viva, onde o passado continua a dançar no presente.
Chegar à chamada "Veneza do Norte", com os seus palácios e canais, não foi apenas o ponto final da viagem, mas uma síntese de tudo o que ficara para trás. A viagem ensinou-me que ver é mais do que olhar e que viajar é, muitas vezes, permitir que o mundo nos desarrume por dentro.
Desembarquei diferente. Num sentimento de missão cumprida! Não porque tivesse encontrado respostas, mas porque aprendera a escutar melhor as perguntas. E talvez seja isso que as grandes viagens nos oferecem: não destinos, mas reflexões que continuam a navegar connosco muito depois de o barco parar.
Célia Almeida
