Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

A Favela de Kibera


Desde muito cedo quis partir em regime de voluntariado, numa viagem a África. Tendo já participado como voluntária numa Associação de acolhimento de crianças, em Portugal percebi, ao receber vários apelos via internet para dar apoio em África, que o queria fazer lá. E foi em agosto de 2016 que parti, numa viagem longa, rumo a Nairobi, no Quénia. De coração cheio, e com a minha total disponibilidade, ia poder proporcionar alguns momentos mais felizes a crianças que tanto deles precisavam.

E foi em três escolas em Kibera, a maior favela de África, com 1,5 milhões de habitantes, que passei os meus dias, durante 3 semanas.

Deparei com uma população flagelada pela pobreza, com condições de vida desumanas, que conviviam diariamente com o lixo e com as valas de esgotos, a céu aberto, onde deambulavam animais domésticos muito mal tratados. O uso de água não potável, as vendas de alimentação nas ruas, sem quaisquer condições de higiene e uma enorme poluição atmosférica, agravavam diariamente o estado de saúde daquela população, sendo a esperança de vida muito baixa.

O acolhimento de todas aquelas crianças foi indescritível, do nada transformavam-se em sorrisos, fazendo-nos sentir o quanto podemos fazer a diferença, com a nossa presença no terreno, naquele mundo tão distante.

Em conjunto com outras duas voluntárias portuguesas, demos seguimento à nossa missão: não só dar muito carinho àquelas crianças, mas também orientá-las em várias atividades, maioritariamente lúdicas, todas elas feitas com materiais levados de Portugal, fruto de vários donativos recolhidos por todo o País. Em visitas diárias às escolas da Favela fizemos trabalhos de criatividade individual e em grupo, que eles agarraram com muito empenho. Como foi tão fácil trabalhar com estas crianças, que nada tinham, e que ficavam absolutamente maravilhadas com tão pouco!

Um dos objetivos da Associação através da qual viajei era também o apadrinhamento de crianças, de forma a poder proporcionar-lhes a frequência na escola, com o pagamento das propinas, do uniforme, dos livros e também da alimentação, que era dada na escola. Até eu ter partido para lá, tinham sido apadrinhadas por portugueses 150 crianças, através da Associação. Um dos nossos trabalhos em campo foi recolher o feedback do aproveitamento escolar do ano letivo dessas crianças, bem como acompanhar os meninos apadrinhados num trabalho feito por eles, para enviar aos seus padrinhos portugueses, em conjunto com uma fotografia atualizada da criança. Este feedback era fundamental para o sucesso da missão, e todos os dias à noite enviávamos a informação para Portugal.

Ainda, visitámos famílias de crianças que não estavam apadrinhadas, para recolher a informação sobre a sua necessidade de apoio, procurando em Portugal mais pessoas interessadas em colaborar com novos apadrinhamentos. Nessas visitas deparámos com uma triste realidade, famílias desmembradas, com 70% de mães solteiras, e que conseguiam ganhar, quando casualmente conseguiam trabalho, por vezes o equivalente a 1€ ou 2€ por dia, para alimentar 4 e 5 filhos, vivendo em "casas" de 9 m2, e em que as crianças, na sua grande maioria, dormiam no chão, muitas vezes sem um colchão para se deitar.

Não me esqueço de um dia em que, à hora de almoço, fomos visitar uma família, e encontrámos uma menina de 10 anos sozinha (a mãe tinha ido procurar trabalho), que lavava a roupa numa bacia, dentro de "casa", e tinha um saquinho de arroz com ela, que seria o almoço que ela ia cozinhar para si e para o seu irmão pequenino. Não tinha ido à escola para poder ficar com o irmão, pelo que não podia usufruir da alimentação dada pela escola. E o que tinham para os dois era somente aquele saquinho de arroz.

Nas 3 semanas lá passadas fomos vivendo com condições básicas, numa casa perto da Favela. Deslocávamo-nos diariamente de manhã para lá, em carrinhas públicas, sempre lotadas, acompanhadas por uma mulher nativa. É certo que estivemos vários dias com falta de água corrente, houve interrupção de eletricidade na casa em que habitávamos, e fizemos uma alimentação bastante frugal. Mas o que era isso, comparado com todas aquelas famílias que não tinham água corrente, em que tantas delas não podiam aceder à energia elétrica, e que dependiam diariamente da eventualidade de algum parco rendimento ganho pelas mães, para se poderem alimentar.

E, não obstante tanta pobreza, pude presenciar nas escolas os cânticos alegres das crianças, rezando por dias melhores, numa alegria contagiante. Bastante emocionada, constatei como elas eram fortes, com grande resistência de alma. Eram miúdos que nada tinham e que, contudo, continuavam a ser gratos pela vida.

Entre dias intensos, com muita dedicação, união e trabalho, o tempo voou. Deixei lá um pedaço de mim, e trouxe comigo também um pouco de todos aqueles corações carentes.

Para todas aquelas crianças, a educação é a arma de que dispõem para o acesso a futuras condições de vida dignas, que lhes permita saírem daquela situação aflitiva e dantesca, que são os dias passados na Favela. E poderem frequentar a escola é fundamental para que o objetivo possa ser atingido.

Espero que a minha presença possa ter contribuído para ajudar aquelas crianças a acreditar no futuro. Da minha parte, para além de poder dar tudo o que estava ao meu alcance, encontrei nesta viagem um lugar de introspeção, onde conheci também um pouco mais de mim. Regressei emocionada e com um sentido de dever cumprido.

Clara Lencastre