Desafio "O meu Bairro"
Bairro de Marvila
Nasci e vivi os meus primeiros 10 anos em Marvila, um bairro popular na zona oriental de Lisboa, hoje rodeado pelos novos bairros do Parque das Nações, os Olivais, e o antigo Beato. Os elegantes Areeiro e Alvalade acabam de o cercar, à beira do Tejo.
Nestas ultimas décadas, uma revolução social, económica, e arquitetónica, talvez das mais significativas da cidade de Lisboa tem vindo a alterar o bairro. E vale a pena ir dar uma passeio enquanto subsistem traças dum passado urbano em transformação radical.
O bairro iniciou-se no século XIX com casas rurais, solares, palácios, mosteiros e conventos, quintas com hortas e pomares, transformando-se progressivamente, junto ao rio, em zona industrial ao longo da Rua do Açúcar: fábricas de material de guerra, fósforos, borracha, instalações da industria do gás, etc.
Esta identidade industrial marcou a região durante mais de um século, até à chegada de artistas e empresários na década de 2000 que revitalizaram os armazéns envelhecidos.
Marvila estende hoje ao longo do Tejo novos espaços de lazer e caracteriza-se pela mistura dos espaços industriais renovados, com galerias de arte contemporânea, como a Fabrica Moderna, Galeria Underdogs, teatro, cervejarias artesanais, bares, restaurantes, lojas, espaços de coworking espalhados pela área e um condomínio de luxo virado para o rio. As intervenções de arte urbana dão vida e cor a este bairro outrora descaracterizado.
No Poço do Bispo, mais conhecido hoje como Praça David Leandro da Silva, o elétrico n°27 há muito tempo que não dá a volta, passando à frente da minha escola: Voz do Operário, contornando o original urinol, curiosamente bem conservado, e desfilava depois à frente da catedral do vinho, o magnifico edifício Abel Pereira da Fonseca, e da prestigiosa sede do seu concorrente José Domingues Barreiro. Nos armazéns do Abel abre o projeto "8 Marvila", um espaço que reúne comércio, cultura e artes.
Da Quinta dos Marqueses de Abrantes subsiste parte do palácio. A entrada conservou o pórtico com o brasão picado de singular risco seiscentista.
No pátio instalou-se a sede da associação musical. Foi aqui que aprendi a dançar quando era garota e é donde saem as marchas das crianças para os desfiles em junho. Têm um pequeno restaurante popular e, uma vez por semana, há distribuição de cestos de fruta feia e legumes das quintas, agora afastadas.
É tempo de ir ao encontro da Catia Freitas, na oficina criativa, partilhada na Fabrica Moderna, passar pela loja chinesa, beber uma cerveja, a ver o por do sol, e, porque não, ir ao teatro. ou mergulhar nas memórias de Amália Rodrigues, no espaço que lhe é dedicado ? Bons passeios pelo bairro da minha infância!
Graça Raposo
Março 2026
