Desafio Viajar para fora, Viajar para dentro

Viagem ao fundo do mar…

Houve um tempo em que fui às Caraíbas com a família muitas vezes. Os destinos habituais de praia, México, Punta Cana, Cuba à procura do calor e das belas águas do Caribe.Ia em especial nas férias da Páscoa para fugir ao frio da Europa como fazem aliás muitos portugueses. No verão a opção deixou de ser aquelas paragens, não só porque a Europa tem também belas praias mas também, porque o risco de dar com os furacões que a partir de Agosto assolam a região, aconselham nesse período do ano a optar por outras paragens. Durante dois anos seguidos escolhi Aruba para passar uns dias com a família. Tinha lá estado uns anos antes, quando ainda não tinha filhos, numa curta viagem a partir de Caracas durante uma visita à terra de Bolívar, agora e desde há uns anos na boca do mundo pelas piores razões. Estando em Caracas um amigo meu que tinha uma agência de viagens, aconselhou-me a não visitar Margarita (que na altura era um destino também muito popular) mas antes ir visitar Aruba, apenas a meia hora da costa Venezuelana e que começava então a despontar para um turismo mais seleto. Na verdade, as chamadas ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Curaçau) são Antilhas Holandesas e estão fora da rota dos furacões, sendo o único destino das Caraíbas livre das tempestades de verão que passam sempre mais a norte. O facto de serem ilhas Europeias, assegura-lhes um índice civilizacional diferente do resto do Caribe, como sejam condições de saúde e segurança exemplares.

Das três ilhas do chamado abc, sem dúvida que Aruba tem as melhores praias e Oranjestad a sua capital, tem o colorido único e tradicional daquela região, mas com uma arquitetura que não esconde a influência Europeia. Dos hotéis, todos virados a oeste em cima de quilómetros de areia branquíssima que nem farinha, veem-se as luzes de Maracaibo na costa venezuelana e o mar ali é frequentemente patrulhado pela marinha holandesa para evitar a emigração ilegal.

O que talvez mais surpreenda o turista português que lá chega, não são as encantadoras árvores Divi que são o símbolo da ilha, as inúmeras iguanas, algumas bem grandes que se passeiam pelos jardins ou assistir ao nascer de tartarugas manhã cedo nas suas praias protegidas. O que nos surpreende logo que chegamos ao aeroporto Raínha Beatriz é o papiengo, dialecto local que é um misto de holandês,espanhol e português.Na verdade tem-se a impressão que os habitantes locais estão mesmo a falar Português.Palavras como bom dia e a sonoridade do próprio dialecto, tudo lembra a nossa língua e recorda-nos que andámos também por aquelas bandas. Na verdade o nome Curaçao terá tido origem na cura dos navegadores portugueses que, ao chegarem à ilha no século XVI, se trataram de escorbuto com as variadas frutas frescas da ilha.

O povo é muito afável e reflete essa miscigenação, sabendo da raiz também portuguesa do seu papiengo e de algumas tradições locais.Mas vai-se a Aruba essencialmente pelo seu mar de cor turquesa, pelas águas transparentes e pela natureza preservada. É fácil com água apenas pela cintura, deslumbrarmo-nos com o colorido das estrelas do mar e os peixes de mil e uma cores. Nos pontões ou nos barcos pousam Flamingos e Pelicanos, nas árvores aparecem papagaios vermelhos e no mar os peixes papagaio são vibrantes, peixes que trituram os corais e produzem a fantástica areia branca e rosa das praias.

Ora numa das duas últimas visitas que fiz a Aruba, desta vez com toda a família, deixei-me seduzir pelo anúncio de uma viagem de submarino ao fundo do mar. Era o Atlantis.O preço era elevado, especialmente porque éramos quatro, mas talvez porque o sol do Caribe estivesse a toldar-me o espírito ou porque em todos nós há sempre um pontinho de aventura, um belo dia contactei-os e reservei lugar nessa expedição.

Na minha vida de jornalista tinha tido algumas experiências marcantes como atravessar o Atlântico no supersónico Concorde, aterrar no porta-aviões Eisenhower em manobras no Golfo da Biscaia ou ver o amanhecer no Atlas a bordo de um balão. Mas nada comparável ao que me aguardava…

Quando cheguei ao porto de Oranjestad esperava ver o Atlantis mas não estava lá. Então explicaram-me que íamos apanhar um barco e que o submarino nos aguardava ao largo, num cais flutuante. Assim foi. Quando cheguei junto ao submarino é que comecei a preocupar-me…Tive dificuldade em imaginar-me a passar por aquela estreita escotilha e descer a escada na vertical, isso atendendo a que sou forte e aquilo é feito para gente magra…Mas já não podia voltar atrás. Não escondia a preocupação. As minhas filhas pelo contrário estavam eufóricas.

Lá entrámos e instalámo-nos com mais umas duas dezenas de aventureiros. O submarino, um modelo já retirado da marinha americana, tinha sido adaptado para o fim turístico, com janelas panorâmicas laterais. Mas quando um tripulante fechou a escotilha e nos deu as instruções a seguir em caso de ser necessário uma evacuação de emergência, achei que estava a arriscar demasiado.

O submarino mergulhou suavemente no oceano, num silêncio total. Gradualmente as cores a bordo foram sendo alteradas pela progressiva ausência da luz solar e mergulhámos então até aos quarenta metros. O submarino acendeu os projetores laterais e os nossos olhos adaptados à ausência de luz solar a bordo, fixaram-se na riqueza de peixes e plantas de muitas cores que desfilavam à frente das janelas. Um mapa junto de cada escotilha ajudava-nos a identificar os peixes que víamos. O submarino desceu mais e a estrutura rangia à pressão da água. Ninguém falava. Contornámos um velho navio afundado, viveiro de milhares de peixes e ao som do 2001 odisseia no espaço que começou a ecoar no sistema de áudio do submarino, o Atlantis pousou suavemente por alguns segundos no fundo arenoso do mar das caraíbas. Que momento! Já me esquecia de todos os receios e da adrenalina do início da aventura...já queríamos que a viagem fosse para além da uma hora programada. Lentamente, o submarino inclinou-se e começou a subir para a superfície.

Tantos anos depois, o Atlantis lá continua todos os dias a mergulhar. Mais de 500 mil mergulhos feitos desde 1985 quando entrou ao serviço. Um record de atividade e segurança para satisfação dos mais de 17 milhões de passageiros transportados.

Quando há poucos meses vi na televisão, a tragédia de um submarino do mesmo tipo que afundou em Hugharda no Egipto, lembrei-me da aventura a bordo do Atlantis, feita já há quase vinte anos, naquela que foi a minha única viagem ao fundo do mar…

Quite an experience!...

Lopes de Araújo
Janeiro de 2026