Ser Cuidador

SER CUIDADOR SEM SE PERDER DE SI
Foi há 5 anos. Aconteceu.
Era o
desafio que eu não esperava: cuidar do meu marido que subitamente adoecera. No
embalo, seguiu-se o meu pai e agora a mãe. E eu, perdida de mim nesta sequência
vertiginosa, conhecendo a exigência das tarefas, procuro por todos os meios
voltar à tona e reencontrar um espaço onde me possa reconstruir e ser para mim
o que sou para os outros.
Ser "cuida-dor" é um papel muito desafiante que tem repercussões de dor em todas as áreas da nossa vida. E, ao mesmo tempo, são gestos de amor profundo para com aqueles que mais amamos. Durante dois anos cuidei do meu marido até ao seu momento de partida. Depois repeti por mais dois anos com o meu pai. Agora cuido da minha mãe no dia a dia. Eu perdi o meu marido, ela perdeu o dela… Cada uma destas experiências trouxe aprendizagens, muitas dores mentais e emocionais que cristalizaram no meu corpo físico. Descobri na dor a minha força interior, mas também me confrontei com uma realidade que se instalou sem eu me aperceber logo: esqueci-me de mim!
As circunstâncias tomaram força e eu mergulhei por completo no ato de "cui-dar". As necessidades dos outros estavam sempre em primeiro lugar: fazer comida, vigiar durante a noite, largar tudo para fazer visitas no hospital e ficar ali fazendo companhia, levar ao médico e administrar a medicação… A minha própria vida não tinha espaço para existir e não era prioridade naqueles momentos. Fiquei em pausa.
As rotinas, as preocupações constantes e a sensação do dever, o saber que tinha de amparar naquele momento exato, que tinha de ser o melhor de mim, pois o tempo estava a esgotar-se para aqueles que eu tanto amava, deram-me a força para cuidar com amor e dedicação do marido e do pai até ao final das suas vidas terrenas.
Só no rescaldo percebi o quanto isso me tinha custado em termos emocionais, físicos e profissionais. Sentia, por momentos, uma subida de revolta, uma raiva das circunstâncias, da vida que parecia estar constantemente a roubar as minhas escolhas, limitando-me repetidamente. Era uma luta silenciosa entre o amor que sentia por aqueles de quem cuidava e a frustração de não poder viver plenamente a minha própria vida. No entanto, aquela rotina, agora, era grande parte de mim, fazia parte do meu caminho.
Com o tempo, a revolta deu lugar a uma aceitação racional. Reconheci que havia responsabilidades inevitáveis, que estava a fazer o que estava ao meu alcance e que o ato de cuidar também estava a dar um sentido e uma direção à minha vida. Ainda assim, sentia que faltava algo: recuperar a ligação comigo própria e compreender a linguagem do meu corpo. Sim, com as dores que ele me enviava, estava a comunicar comigo, dando-me informações preciosas para eu me incluir nesta equação de cuidados.
O meu desafio era agora encontrar um equilíbrio entre cuidar bem dos outros e manter intacto um espaço-tempo para cuidar de mim.
Precisei de encontrar momentos para respirar conscientemente, para fazer coisas que gosto, para escutar e aceitar as minhas próprias necessidades. Durante uns anos, morri. Agora procurava a minha sobrevivência. E percebi que também era um ato de amor para com aqueles que precisavam de mim, poder lidar comigo inteira, viva internamente, oferecendo o melhor de mim, contactando com tudo o que eu era.
Hoje, caminho com o desejo de retomar uma carreira, voltei a sonhar com projetos pessoais e estou a realizá-los a passo de caracol, sem deixar de acompanhar a minha mãe. Não tem sido fácil conciliar, mas acredito que é possível, por isso insisto.
Ser cuidadora ensinou-me que não é só cuidar da dor dos outros. É também cuidarmos de nós para evitarmos a dor de nos perdermos neste caminho de inúmeros desafios. É aprender a equilibrar estes dois movimentos: dar e receber, estar presente para os outros e também para si mesmo. É reconhecer que cuidar de quem amamos é, de facto, um ato de amor, mas que esse ato tem de nos incluir a nós mesmos também.
Finalmente, depois de tantos obstáculos ultrapassados, verifico que é possível ser cuidadora sem me perder de mim mesma. Escolho manter ativo o amor-próprio para ficar inteira e dar o melhor de mim. É essa a esperança que levo comigo, neste meu caminho de cuidadora, como um farol para os dias que ainda virão.
Maria do Céu Vinagre
24 de agosto 2025