Fobias e manias

30-04-2022

Quando eu era pequena, havia na minha aldeia umas manias, talvez melhor superstições, quanto ao que uma donzela não podia fazer na fase "daquilo" (raramente se ouvia menstruação). Nesse período perigoso, não se podia tomar banho nem comer azeitonas pois ficar-se-ia com a cara cheia de borbulhas. Também era totalmente proibido falar sobre "isso" perante qualquer ser masculino; diziam regras e eles pensavam que era gramática. Na altura das vindimas, o lagar com as uvas já pisadas era completamente vedado já que provocaria a não fermentação do mosto e todo o vinho ficaria estragado. Ah! Bolos, nem pensar, porque as claras não subiriam.

Havia uma fobia a varejeiras que podiam pôr ovos no presunto e no fumeiro e traziam má sorte. Ainda a tenho hoje; faço figas e digo "Vá de retro, Satanás!". Pode ser uma maluquice que não consigo superar, especialmente se voarem silenciosas, significa o pior. Também havia outra mais trágica. Se se sonhasse com dentes, era prenúncio da morte de alguém.

Sempre odiei ir a velórios e funerais porque apareciam as carpideiras, todas de negro e embiucadas com lenços, xailes e véus pretos. Faziam uma grande choradeira e davam gritos lancinantes. Eu conhecia algumas e nem sequer eram familiares do defunto e ficava revoltada pois não conseguia compreender como podiam chorar e gritar por uma pessoa que não lhes era nada. Mas era uma tradição que eu não permiti no velório do meu pai Amado, com educação e muita explicação.

Nos últimos anos surgiu uma nova mania: aplaudir os defuntos célebres e os não muito. Seria uma heresia bater palmas há umas décadas. Enfim, novos costumes, novas manias!


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. (1)

ou

Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza:

A um morto nada se recusa,

E eu quero por força ir de burro!... (2)


Eu cá por mim, comungo o após vida como a Sophia e não chego ao extremo circense de Mário de Sá Carneiro. E nada de carpideiras já que a "Morte Natural" é o nosso destino assinado à nascença, como escreve o nosso sábio João Solano.


Acabei de ler que morreu hoje, 15 de Abril de 2022, a Grande Actriz Eunice Muñoz, aos 93 anos. Ela sim, merece uma enorme salva de palmas por ter dedicado toda a sua vida ao teatro, conferindo qualidade ímpar a todas as peças e papéis que representou.

A minha homenagem através de um poema:

Que é voar?

É só subir no ar,

levantar da terra o corpo, os pés?

Isso é que é voar?
Não.


Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.


Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Lurdes Aleixo


Fontes: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in LIVRO SEXTO (Moraes Ed., 1962), (Assírio & Alvim, 2014) in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015); "Fim" de Mário de Sá Carneiro; Que é voar? Ana Hatherly in Um Ritmo Perdido

Fotografia de Pedro Bello